segunda-feira, 7 de novembro de 2005

Notas do Exílio Telefônico

As luzes da cidade não estão acesas, mas ainda sim eu continuo aqui nesse apartamento. Por quanto tempo? Não faço a mínima idéia, mas assim como nos dias da Palestina, eu me desprendo deste lugar já que eu sei que o fim está próximo. Tem horas que eu acho que as pessoas ao meu redor reagem melhor a tudo isso, seja dando de ombros a toda essa confluência idiota, seja indo tocar suas vidinhas suuperlegais estando com outras pessoas. Ora bolas, eu deveria ter me livrado deste sentimento de pseudorejeição há muito tempo. Dra. Denise, quero meu dinheiro de volta! eu continuo sendo um gato assustado do futuro. Lo que sea. Apenas fico fazendo as contas das coisas ao meu redor.

*Um fogareiro duas-bocas apenas para solteiro.

*Uma mesa de segunda mão com pelo menos duas cadeiras (três seria ideal, quatro é luxo).

*Uma geladeira velha, ou mesmo nova - de quem não precisa mais dela.

*Uma estante-rack para meus discos, meus livros e nada mais.

A cama, pelo menos, eu já a tenho. Cortesia de vendas de meu ilustre amigo Dedeco.



Deus, eu preciso realmente sair. Essa vida de clausura está a me matar.

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Sim, hoje oficialmente sou um fumante inveterado. Culpa dos cigarros tarja-azul, que são fracos e inebriantes ao mesmo tempo. Sim, eles broxam. Sim, eles causam câncer. Sim, eles possuem fotos macabras nas suas costas, incitando-nos a não compartilhar deste vício infame. Sim, eu sei de tudo isso. E sim, eu não me importo.
Os tarja-azul possuem a vantagem de não me deixarem com a sensação que sou um caminhoneiro fedendo a cigarro e nicotina forte. Por mais que as indicações nas embalagens sejam errôneas. Quando eu era moleque, os maços de papel costumavam vir com sedinhas dentro para os mais descolados, só que agora eles ficaram muito muquiranas. Quem sabe eu atormente o povo do SAC para voltarem a colocar a sedinha dentro dos maços de papel. Seria uma mão-na roda. "Chega de ir até a banca de jornal pagar uma fábula por sedinha importada. Grátis no seu maço Hollywood, vem uma providencial folha de papel de arroz, para você dar aqueeeeeela amenizada depois que o seu 'careta' acabar. Colecione.".

Tinha uma esquete dos "True" Trapalhões nos anos oitenta que o Didi largava o fumo para explicar que se economizasse com cigarros, durante 1 ano ele teria uma quantia X. E que com essa quantia X, dali a um ano, teria dinheiro para comprar.... um maço de cigarros. Bons tempos que tínhamos mais motivos para fazer troça com nosso país. Agora é apenas dinheiro em cuecas, gripes aviárias, presidentes alcoólatras. E até o Pânico perdeu a graça tendo que se reforçar com o filho do Serginho Mallandro. Vivemos às portas do Apocalipse, só que não conseguimos enxergar isso.

"Goodbye, and thanks for the fish."

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Segunda-feira eu tenho que consultar a porcaria do serviço postal do condomínio que não deixa mais nada em nosso apartamento, culpa das dívidas de condomínio. Ver se eu finalmente apanho o meu álbum customizado de dona Deni S. Aqueles quatro dias não merecem apenas um espaço virtual em meu disco falho. Me gustaria colocar mais fotos lá, só que sabe como são as coisas. deveria ter usado a câmera alheia nesses casos. Seria bastante interessante.

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No fim das contas, nós dois precisamos de comrades, flor ardente.

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Lembra do método pelo qual se escolhe o atendente do Bob's segundo o Viciado Carioca? Pois bem, o mesmo vale para as operadoras do correio no Condomínio Parque dos Flamboyant's.

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"Primeiras Impressões ao ler os primeiros capítulos de Lolita"

O peito arfeja. O coração dispara. Sente-se um comichão em seus fundilhos, um grito emitido de algum canto da savana sul-americana. A onça surge entre a folhagem e os pântanos, soberana como a senhora feudal de todo o desejo negado. Cada página é uma mistura de demência e êxtase. Os meneios que a jovem ninfeta (que de onde é que surgiu tal verbete) faz com seu Humbert relembram os acordes de uma velha canção de um velho filme que chama um aroma doce de cânhamo e a luz das estrelas. Lester Burnham olha de alguma nuvem do céu de novembro e pergunta onde estão seus cigarros, no momento em que eu levo mais um American Blend aos lábios, sonhando que fossem os próprios lábios de minha musa, há muito distante de mim.
Vejo-me como a mistura de todos os monstros que nenhum cartunista japonês jamais teria tempo ou mediocridade de conceber. Com as tragadas leves, componho os quadros do meu próprio "storyboard" e vejo a vizinha novamente desfilar pela cozinha do prédio ao lado. As ancas largas, o peito generoso. A própria impressão de minha palma impressa no vidro como a marca do Feiticeiro Branco. 'Lurdinha era apenas uma normalista recatada ante os olhos da vizinhança em Marechal Hermes, até a chegada de Arnoldo, um jornalista desempregado e desesperançado levar-lhe uma ponta de fulgor', imagino o próprio José Wilker comentar como o prólogo de mais uma encenação de Nelson Rodrigues. Nelson, Nelson, me dê forças nesse momento, ajuda a teu novo convertido, me dá forças para escrever mais uma linha, apenas mais uma linha, pensando em meias-calça, corpetes e cigarros sem fotografias de deformidades e admoestações politicamente corretas. Me leve de volta ao lar dos depravados, dos pornógrafos, dos antigos boêmios de verdade. Me leve de volta aos braços da minha Lolita, encravada em algum rincão longe de mim. Perdoa-me mestre, se cometi alguma falta diante dos teus olhos ao roubar tão puerilmente as linhas dos verdadeiros boêmios, mas no meu tempo e no meu espaço, não se pode mais sonhar com esse senhor tempo bom.
Não evito colocar a trilha daquele filme que você tanto gostou, minha Lolita particular. Sabe como são as coisas, não é? Não és mais jovem, não tens a inocência latente e a sensualidade mas aqui estou me lembrando de ti naquela noite fria. Ele aprendeu a lição dele, eu queria aprender a minha, mas na verdade não quero aprender, não quero sair desta escola que tanto gostei, não quero sair do tempo. Sou mais um Pedro da Flauta. Lolita, Laura, nomes mil tu tens.
Estou aprendendo a ser um velho decrépito.

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