terça-feira, 29 de novembro de 2005

"I'm sorry Miss Jackson, I'm for real...."

Essa é mais uma das minhas colagens. Essa vai em especial para todas as gurias, gurias, mães de gurias....



Aos Apaixonados
A Menina No Espelho
Aos apaixonados
Rubem Alves

Dedico esta crônica aos apaixonados, mesmo sabendo que
servirá para nada. É inútil falar aos apaixonados. Os
apaixonados só ouvem poemas e canções. A paixão,
experiência insuperável de prazer e alegria, pelo fato
mesmo de ser uma experiência insuperável de prazer e
alegria, coloca o apaixonado fora dos limites da razão.
Todo apaixonado é tolo. Pode ser que ele escute a fala
da razão. Escuta mas não acredita. Diz: "O meu caso é
diferente!" Tolo mesmo é quem tenta argumentar com os
apaixonados.

Começo minha inútil meditação com um verso terrível de
T. S. Eliot. Ele está rezando. Ele sabe que somente Deus
tem poder para lidar com a loucura da paixão. Ele reza
assim: "...e livra-me da dor da paixão não satisfeita, e
da dor muito maior da paixão satisfeita".

Todo mundo sabe que a paixão não satisfeita dói. Mas
poucos sabem que a paixão só existe se não for
satisfeita. A paixão é um desejo de posse que, para
existir, não pode se realizar. Como a fome: depois do
almoço a fome acaba...

Paixão é fome. Ela só floresce na ausência do objeto
amado. Mais precisamente, ela vive da ausência do objeto
amado. Não se trata de ausência física, o objeto amado
distante, longe. A dor da ausência física tem o nome de
saudade. Saudade tem cura. A saudade é curada quando o
objeto volta. A dor da paixão é diferente. Não tem cura.
A saudade do objeto amado, mesmo quando ele está
presente, é o perfume característico da paixão. Cassiano
Ricardo sabia disso e escreveu:

Por que tenho saudade
de você, no retrato, ainda que o mais recente?
E por que um simples retrato,
mais que você, me comove, se você mesma está presente?"

Que coisa mais esquisita! Como pode ser isso? Como pode
se sentir saudade de algo que está presente? A resposta
é simples: a gente sente saudade de uma pessoa presente
quando ela está se despedindo. Cecília Meireles,
desenhando sua avó morta, a quem ela muito amava,
disse: "Tu eras uma ausência que se demorava; uma
despedida pronta a cumprir-se." Dirão: "É natural. A avó
já era velhinha..." É verdade. Mas o que caracteriza o
olhar apaixonado é que ele percebe, no rosto da pessoa
amada, essa ausência que se anuncia e essa despedida
pronta a cumprir-se. O apaixonado pensa que sua paixão
tem a ver com o objeto. Ele não sabe que foi o seu olhar
que o tornou encantado. Os poetas são pessoas
apaixonadas pela vida. E a sua paixão faz com que ela, a
vida, apareça sempre banhada por uma luz
crepuscular.

Rilke perguntava, sem esperanças de resposta: "Quem foi
que assim nos fascinou para que tivéssemos um ar de
despedida em tudo que fazemos?" É o olhar da pessoa
apaixonada que cria a imagem do objeto da paixão. É
sobre Cecília Meireles que o Drummond escreve. Mas sua
descrição, eu creio, se aplicaria a todos os objetos da
paixão:

Não me parecia criatura inquestionavelmente real; por
mais que aferisse os traços de sua presença entre nós,
restava-me a impressão de que ela não estava onde nós a
víamos. Distância, exílio e viagem transpareciam no
sorriso benevolente... que confirmava a irrealidade do
indivíduo.


A dor da paixão não satisfeita é essa: o apaixonado
deseja possuir o objeto do seu amor, mas ele escapa
sempre. Por isso ele sofre. Movido pela dor, quer possuí-
lo. Não sabe que, para que sua paixão continue a
existir, é preciso que ele continue escapando sempre. A
paixão só ama objetos livres como os pássaros em vôo.


"...e da dor muito maior da paixão satisfeita".

A dor da paixão não satisfeita é iluminada por uma
alegria. O apaixonado vive na presença de que um dia ele
possuirá o objeto da sua paixão. Mas a "dor muito maior"
da paixão satisfeita não tem mais esperanças. O objeto
se desfez. Ela vive na tristeza do objeto perdido.

Escrevi uma estória sobre isso. A Menina era apaixonada
pelo Pássaro Encantado. Mas ela sofria porque o Pássaro
era livre. O Pássaro Encantado era sempre uma ausência
que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se. O
Pássaro lhe disse que era preciso que fosse assim, para
que eles continuassem apaixonados. Ele sabia que a
paixão ama pássaros em vôo. Mas a Menina não acreditou.
Prendeu-o numa gaiola.

Gaiola? Há as feitas com ferro e cadeados. Mas as mais
sutis são feitas com desejos.

Esquisito o que vou dizer: a alma é uma biblioteca. Nela
se encontram as estórias que amamos. Romeu e Julieta,
Abelardo e Heloísa, O paciente inglês, As pontes de
Madison, Amor nos tempos do cólera, A menina e o pássaro
encantado. As estórias que amamos revelam a forma do
nosso desejo. Delas, escolhemos uma. É a nossa gaiola.
Gaiola na mão, saímos pela vida à procura do nosso
Pássaro. Quando imaginamos havê-lo encontrado – que
felicidade! Ficará feliz em nossa gaiola. Será o amante
da nossa estória de amor: eu para você, você para mim...
Nós o colocamos lá dentro e pedimos que nos cante
canções de amor.

Acontece que o Pássaro também tinha a sua estória. E era
outra. Todo Pássaro deseja voar. Ele bate suas asas
contra as grades, suas penas perdem as cores e o seu
canto se transforma em choro. E, de repente, ele se
transforma. Não mais o reconhecemos. É um outro. Essa é
a razão por que a dor da paixão satisfeita é muito maior.

Contada assim, a estória parece ter um vilão e uma
vítima. A verdade é que os dois são vilões, os dois são
vítimas. O desejo da gente é sempre engaiolar o outro e
levá-lo pelos caminhos que são nossos. Isso vale para
tudo: marido-mulher, pai-filha, mãe-filho, patrão-
empregado, professor-aluno... Não admira que Sartre
tenha dito que "o inferno é o outro".

Não haverá uma saída. Lembro-me de um pequeno poema de
Pearls que sugere a possibilidade de uma relação sem
gaiolas:

Eu sou eu.
Você é você.
Eu não estou neste mundo para atender
às suas expectativas.
E você não está neste mundo para atender
às minhas expectativas.
Eu faço a minha coisa.
Você faz a sua.
E quando nos encontramos,
é muito bom.

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