sábado, 23 de julho de 2005

Short Story: "Viva La Boca"


N.A.: Essa historinha seria algo que seria até digno de ser filmada de forma caseira, se não existisse 'Hermes e Renato' para nos processar lá de Niterói ou qualquer canto carioca do qual tenham saído.

Era o segundo jogo das quartas de final da Libertadores. Não tinha Galeano, não tinha merda nenhuma que pudesse encher o meu saco agora. Só que tinha aqueles malditos argentinos. Argentinos de merda. Pobres, metidos e branquelos do caralho. Só gosto do Tevez, e do Tevez AGORA. Mas era aquele dia que só quem se fode animal sabe como acontece. Até voltei mais cedo pra casa, sem passar pelo centro pra poder me azeitar na frente da tevê, com a minha cervejinha e a minha televisão.

Puta merda, cadê a televisão?

- Silene, cadê a tevê mulher?
- A tevê?
- É SUA PUTA BURRA, cadê a minha tevê?
- Caralho, roubaram a tevê....
- Mulher, não me enrola agora, eu quero saber onde está a minha tevê.
- Aaaah, mas é só uma tevê.
- Silene, hoje tem jogo do Curintias, e não é jogo qualquer. É jogo de Libertadores. Eu quero ver essa porra de jogo.
- Ah, por quê não assiste na casa do Beto?
- Tá no Pacaembu.
- E na casa do Tom?
- Também foi pra lá. Todo mundo que eu conheço foi pra São Paulo ver esse jogo e eu fiquei porque achei que era melhor assistir dentro de casa com a minha mina e tomando uns goró que ficar cercado de um bando de cueca. E agora eu chego em casa, faltando duas horas pra ver o meu Timão jogar e você diz que a televisão sumiu. Num me vem com essa agora, Silene! Eu quero a minha TV!
- Hmmm.
- Tá com o olho vermelho, mulher.
- .....
- Tu andou comprando fumo de novo, né sua vagabunda?
- Com que dinheiro?
- Com a minha tevê CCE que ganhei do meu padrinho no nosso ajuntamento, sua piranha de merda!
- Quer saber? Eu troquei mesmo essa porcaria de tevê. Num aguento mais essa vida, Valdir. Se não é o Corinthians, são os seus amigos que estão metidos com o Corinthians. Isso não é vida. Eu não abri mão da minha solteirice por essa merda. Quer saber? Por isso que eu compro farinha no morro: eu não aguento mais você, não aguento mais o Corinthians, não aguento mais você falando mal do meu time. Escolhe agora, ou sou eu, ou é o Corinthians nessa noite.
- Entre a minha paixão, e uma são-paulina de nariz de oro? Onde você trocou a minha tevê?
- No argentino.
- Então...

Eu peguei uma sacola de feira e atochei as roupas da Silene dentro dela

- ... sai do meu barraco.

(continuaNDO)

Santa bronha. Aquela punhetagem sentimental toda. Eu não acredito que ela tentou usar aquela merda de "Ou o Corinthians ou eu". Ha há. Ela não era tão fodida assim. Ou era, nunca se sabe. Mas beleza. E então eram nove e quinze da noite e eu tinha que subir a porra da Vila Formosa em busca do bendito argentino que o povo vivia falando mas que eu nunca vi mais gordo. Tudo por causa da minha bendita tevê. Como é que ela, franzina do jeito que era, conseguiu carregar uma Vinte Polegadas morro acima, afinal de contas?
E por quê diabos eu não fui ver o jogo no buteco da esquina? Princípios, meu chapa. Em primeiro lugar, eu não gosto de companhia de macho pra ver futebol. Sempre me deu azar. Quando eu fui pra Nove de Julho ver a final da Copa no telão deu merda. Depois disso, tem que ter pelo menos uma xoxota para dar sorte, nem que não seja da minha alçada. E, de mais a mais, eu não ia dar esse braço a torcer pra vagabunda da Silene. Com a ajuda dela ou não, eu iria ver aquele jogo e o meu time ia passar pelo River Plate.

E lá estava eu na frente da tal boca, depois de dar uma de nóia e ficar onde ficava "a casa do Argentino". Veio um dos guardinhas dele pra cima de mim:

- Tá fechado hoje, doy. Some.
- Vim falar com o Carlitos.

(O nome do argentino dono da boca de fumo era Carlitos. Eu ri pouco quando o Kia trouxe o Camisa 10 de Forte Apache pro Parque.)

- Qué que cê qué com o dom, seu mané?
- Vim comprar uma coisa que ele não vende.
- Que idéia errada é essa, eh?
- A tevê da minha casa.
- Aaaah, só. Jão, avisa o homem. E você, guenta a mão que daqui a pouco cê já sobe.

Nove e meia. Nove e quarenta. Dez horas. O tempo passa. Eu ouço os fogos. Meus ou do Duda, aquele palmeirense filho de uma égua? Boa pergunta. Eram dez e meia quando eu consigo subir até aonde estava o argentino. Sentado, no sofá dele, com a minha tevê ligada. E uma camisa do River Plate.

- Filho da puta....
- Que foe?*

(N.A.: As falas do Carlitos estão grafadas de modo "errado" para dar a sensação de portunhol. é tosco eu sei, mas como estamos na faculdade e dizem que é uma época de experimentalismo, eu prefiro experimentar isso que as outras alternativas - dar a bunda ou poesia concretista.)

- Vim comprar de volta a minha tevê de volta.
- Amanhã, boludo. A diente fala disso amanhã, okei?
- Ô chefe, quebra essa pra mim hoje?
- Mas por qué jô tenho que facer una coissa dessas para alguién como vosté?
- Porquê essa tevê é minha, a vagabunda da minha namorada tentou me ingrupir e eu vim pegar ela de volta pra ver o meu jogo.
- Que piena, esse ê tambên meu djogo. E vosté fala daquela chinga qué trosse esse lindo telebisor? Me custó apenas quinsse gês.
- Tuuudo bem, trezentos paus pra agora.
- Secentos reales.
- Puta meu, nem fodendo.
- Entonces no jode, cabrón. !Avante, River!

***

Sabe aquela coisa que, anos depois você olhando pra trás, você relembra e diz "puta merda, eu sou burro pra caralho"? Então. Era mais ou menos quando aquele zé ruela perdeu a cabeça e foi expulso que eu também resolvi pirar no cabeção. Saquei os trezentos paus que tinha acabado de receber adiantado no trabalho, deixei em cima da mesa dele, peguei e chutei pro chão a MINHA TEVÊ. Depois disso pulei feito gato fugindo do banho pela janela do barraco dele. Porra, era a minha tevê, eu já fazia muito estar pagando por ela de novo, certo? Pelo menos era o que eu pensei naqueles vinte segundos, até a verdade me atingir como uma ardência fodida na minha orelha esquerda.

O lazarento, filho de uma puta, argentino bebedor de mijo, canalha, cheirador da bunda do Maradona conseguiu acertar um tiro na minha orelha! Mas na hora eu só conseguia pensar no brinco que tinha se espatifado e tinha ganhado da Mãe Vivi pra tentar fechar o meu corpo. Funcionou até um certo tempo. Evitou umas duas gonorréias na terceira divisão da noite de Sanja e outras merdas que rolaram um pouco antes disso tudo. Eu tava louco de raiva por causa daquele dia de merda que eu tinha tido, mas tudo tinha um limite e eu ainda não tava dando murro no poste. E eu sabia que eu não tinha muitas chances de ver o Globo Esporte amanhã se eu não conseguisse chegar em casa e apanhar o meu cano, então eu saí pulando quintal atrás de quintal e telhado pra cortar caminho até em casa.

Só que eu não tive a menor chance. Me pegaram na frente da casa do porco do Duda. Palmeirense filho da puta, tava assistindo o jogo tranquilinho na sala dele quando o carro do Carlitos me fechou e com o cavalo de pau me jogou pro portão da casa dele. Ele já saiu do Voyage cinza engatilhando a arma. Tava zuretaço, catando cavaco e com a cabeça zunindo depois de tudo. Bateu um cagaço fudido. Era oficial: eu tava fodido (com O) e mal-pago.
Foi quando o Duda saiu gritando pelo quintal:

- Daaaaaaaaaa-lheeeeee Riiiiiiiiveeeeeeeeeeerrrrrr! Toma na toba, Timinho de merdaaaaa!
- Toño, qué passa?
- Gol do River, do D´Alessandro. Dois a um.
- Puta que pariu - eu resmunguei. - Mata logo então. Tô fudido mesmo.
- Hahahahahahahahhahahahahahahah.....

E só me lembro do Carlitos indo embora e dar um tiro no meu pé direito antes de entrar no carro dele pra subir o morro de novo. Se quer saber se eu me perguntei porquê diabos ele resolveu dar um tiro no meu pé, eu vou lhe responder sinceramente: tou cagando pras razões dele.

O foda que eu nunca mais pude jogar feito gente decente no time da fábrica.

(fim)

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