domingo, 3 de julho de 2005

"El Coronel No Tiene Quien Le Escriba"*

Aquele velho vivia há mais ou menos oito anos naquele apartamento do Centro de São Paulo. Prédio clássico, arquitetura anos-quarenta, com pequenos arranjos de gesso na junção do pé-direito. A cor-salmão e os móveis escuros, somados às cortinas, davam um tom lúgubre ao local. Fazia-o menor do que era. Como nos tempos aúreos, antes do conceito de "menos é mais", seria um grande apartamento nos dias atuais.
Serafim comprou aquele apartamento. Não o alugou. Comprou mesmo. Isso foi depois de pagar aluguel por um ano. Gostou do lugar. Tinha uma padaria há menos de dois quarteirões. Seis quadras do Metrô Ana Rosa. Uma farmácia. Uma pulseira de socorro, caso seja encontrado pela diarista que vem para arrumar as coisas toda terça e toda quinta. Dois sábados por mês, revezados sim-não. A Jussara nem mesmo sabia qual era o nome direito do homem, só sabia que ele gostava de ser chamado de "SeoRubem". Talvez nem fosse direito o nome dele, ou mesmo fosse um desfarce pra outras coisas. A Jussara sempre assistia o Cidade Alerta e também lia os contos de Agatha Christie comprados no sebo do centro da cidade.
Na sala, uma TV CCE, um 3 em 1 daqueles antigos e funcionais, sofás de korino preto e um abajur ordinário. Cozinha, os items de praxe. Talha de cerâmica, a mesa da cozinha com a fruteira sempre com uma pera, algumas bananas e um cacho de uvas-itália. Na geladeira, o recado: "QUARTO DIA ÚTIL DO MES - PENSÃO". O escritório. Tinha uma máquina de escrever Olivetti compacta. uma escrivaninha no lado oposto, com uma luminária antiga. Algumas fichas de arquivo, e sua poltrona reclinável, ao lado do pequeno rádio-relógio, a ilha de modernidade naquele monumento à decoração retrô.
Era uma sexta-feira. Precursora de um sábado-não. Sintonizou na Cultura, seguindo o gosto de outros velhinhos. Tocava uma do Pixinguinha, saudoso e "quase parnasiano" como só Pixinguinha consegue ser, como disse certa vez Seo Rubem. Ele mexeu nas suas caixas e encontrou uma foto. Reclinou em sua cadeira. Pensou em refletir sobre suas tardes com Carlinha, como ela o fazia feliz, em como tiveram seu filho que morreu enquanto andava de bicicleta e um caminhão surgiu em seu percurso. Mas não. Ele tinha outra coisa pra fazer.
Deixou a foto de lado, com a moldura em pé e remexeu novamente nas caixas ao lado do arquivo. Tirou uma folha de papel amarelada, com alguns nomes rabiscados e outras notas, de um caderninho que mantinha.


"Juca. Billa. Chiquinho. Eles estão na rua João Batista, 345, a casa verde de dois andares no centro de Belford Roxo, a duas quadras da Camara Municipal. Aparelho."

'Eu relembrei daquele dia. Amarramos os garotos em cadeiras de escola, como fazíamos na delegacia. O Ricardo era meio sacana com os garotos, começou currando o Billa. Magrelo, olho fundo. Não parecia um subversivo. Os outros dois, pelo que vimos, tinham sido treinados em Cuba, guerrilha urbana e tudo o mais. Aqueles dois eu mesmo tive o prazer de apertar. Coloquei dois cabos de chupeta no pinto de cada um dos dois, em momentos separados. Um na base, outro na chapeleta. Pra doer mesmo, achando que ele iria abrir o bico de primeira. Só que o filho da puta não abriu. Mandei o Tonhão dar a partida no motor elétrico e comecei a sentir o cheiro de churrasco. Foi quando eu desliguei o motor e comecei a bicudar o maldito. Estava cagado de raiva. Estava puto. Estava louco. Quando percebi que meus sapatos tinham se sujado de sangue, eu comecei a pisar no rosto do Chiquinho. Ele me olhava com aqueles olhos verdes de orgulho e arrogância, dono de um ar empolado. Me lembrou os olhos daquele outro cara. Foi então que eu os furei com a chave do carro. Sabia que ele não tinha muita saída. Mandei chamar o outro, e puxei o "ferro oito" na frente dele.
- Olha só o que eu faço com o seu amiguinho, seu merda.
e puxei o gatilho.
Conseguimos o que queríamos, enforcamos o outro com água e desovamos no lugar de sempre.'

***

'Era a minha primeira missão. Nós iríamos desbaratar uma sede de um sindicato que estava imprimindo panfletos subversivos, aida nos tempos do Vargas. Esperávamos resistência. Não me esqueço do coração batendo, minhas pernas tremiam. O som do motor era algo que tentava usar para me distrair. contava o tempo nas batidas do meu coração. Sessenta batidas fortes no meu pescoço eram um minuto. Ficava com o dedo sobre a minha jugular para contar. Achava que em mais ou menos duzentas batidas chegaríamos no lugar, só que eu acabei ouvindo na minha frente: "Caralho Max, parece que você NUNCA VIU UMA BOCETA". Eu não entendi de primeira, só que anos mais tarde, ao ver o meu segundo filho contando sobre a primeira vez que ele viu uma mulher nua e que seu pau não levantou, eu entendi o que aquele cara quis dizer pra mim. Eu também senti aquele gelo, correndo em minhas pernas, quando eu entrei no quarto daquela argentina quando eu tinha dezesseis anos.'

Se tivesse escrito isso antes, em algum outro ano de sua vida enquanto sombra, teria tido medo, orgulho, remorso. Respectivamente. Mas percebeu o quão pequeno era ao colocar sua vida em linhas. Depois de tanto tempo, de tantas sacanagens, de vidas passando como vinténs, de mortes e vidas, de fardas e divisas, de toda a mediocridade humana, ele só tinha uma coisa pra recorrer aos oitenta e sete anos. A foto de sua Carlinha.

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* um filme de Arturo Ripstein, baseado num roteiro de Gabriel García Marquez. Sem relação nenhuma com o filme.

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