sábado, 18 de junho de 2005

Scrapbook.

Do inglês, "Livro de Colagens" ou termo semelhante. Quando alguém começa a colecionar recortes de jornais, de revistas ou de livros com um tema específico.
Os eventos aqui são em parte ficcionais, em parte reais. Alguns foram copiados de filmes. Não pago royalties a ninguém. Qualquer coisa, reclamem.


Descia pela ladeira pensando nos cabelos ruivos. Achava ainda que poderia me perder naqueles cabelos cor-de-vinho numa manhã de Domingo, olhos colados pelo Sol que teimava em entrar e fascinado pelos olhos dela, borrados de maquiagem - tudo bem, mais borrada a maquiagem pelas peripécias na noite anterior. Um pouco latejante pelas doses de vodca. Ouvia uma versão "caseira" de "Only in Dreams", que vinha numa edição comemorativa de não-sei-o-quê do álbum "Blue" do Weezer. Rivers Cuomo é um Goodfella. Descia pela ladeira pensando em coisas num previsto e contado futuro certo. Foi quando as luzes ficaram mais fracas e eu ouvi dois elásticos se arrebentando.

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"Deus Seja Louvado!"

Naqueles dias eu estava insuportavelmente transtornado. Mais do que estava no último mês de Január. Esperava o resultado das provas, como um condenado na Milha que esperava a ligação do Perdão do Governador. Ficar mais um ano naquelas condições, naquela vidinha medíocre em que não podia fazer metade das coisas que eu queria sem um devido formulário preenchido, era a última coisa que eu esperava para minha vida. Foi quando eu descobri que tinha sido veiculado o veredicto naquela mesma madrugada. Foda-se a Lei da Meia-Noite, isso precisa ser desvendado. Eu já tinha sido vencido pelo Gasparzinho Volante-Falso, tinha naqueles dias a "Síndrome Asuka": não conseguia comer, pensar ou cagar outra coisa a não ser "tenho que passar nessa merda".
Entonces...

E eu levei apenas um CD do Clapton, o "From The Cradle" e um duplo do Legião como únicas possessões musicais para a Cidade.

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Clarah tem razão. Os homens possuem idade mental de doze a dezoito anos. Bom, quando eu cheguei aqui, tinha onze. Julia que o diga. Não que ela fosse mais tarde querer algo, muito longe disso. Mas eu tinha a percepção sensorial de uma marmota com glaucoma.

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Eu nunca gostei de Reggae. Nem fudendo. Exceto quando eu passei a ouvir um K7 do Bob Marley na viagem de volta à Bahia, para preencher o tédio das estradas e a tacanhice da minha querida família. Mas aí era outra conjuntura - era a única coisa audível na prateleira de cassetes piratas e, venhamos e convenhamos, ele fazia a maconha parecer legal com suas músicas. Mas isso não importa. O que importa é que eram duas da manhã e eu estava me perguntando "O que diabos eu estou fazendo aqui assistindo a um show do Natiruts?"

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Existem coisas e coisas. Existem mulheres. e Mulheres, com eme maiúsculo. Não aquele programa tosco com a Mama Bruschetta. A questão é que sempre existem essas filhas-da-puta (no bom sentido) que acabam te levantando e cortando feito uma bola de vôlei.
"Faye Valentine I" era uma delas.

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Eu não sei qual é o nome do filme, ou se existe um roteiro assim por parte de Hollywood, Bollywood (a capital dos filmes indianos que movimentam um mercado fabuloso - acredite, eles existem) ou em qualquer outro canto do mundo cinematográfico. Mas qual era mesmo o nome daquela história em que duas pessoas que se odeiam acabam se tolerando, e se tolerando, a ponto de até se tornarem bons amigos com o passar do tempo?

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... mas depois que os cantores de neo-punk começaram a pintar as unhas de preto e usar lápis no olho, eu decidi queimar as minhas coleções pirateadas do Green Day. Se eu já achei o "Jóia" do Caetano uma afronta ao sexo masculino com aquilo de musiquinhas hippies e uma capa em que ele aparece pelado com a família dele segurando uma pomba num céu com arco-íris, eu não seria parcial dessa vez com Billie Joel e sua trupe. Queimei, taquei fogo mesmo. Mas tudo bem, eu já gostei de Creed. E eu já fumei maconha. Mas hoje em dia, nem um, nem outro...

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Foi quando eu tive um surto antilibidinoso que eu decidi queimar por conta própria uma coleção de revistas pornô que eu tinha quando era mais jovem. Foi por algo realmente pesado, coisa que poderia me render cadeia caso tivesse ido adiante. Ainda mais que eu era um semi-diácono da maldita Igreja Adventista.
Entre essas revistas, muitas delas sem capa - por isso, sem valor de revenda - estava uma Playboy de mil novecentos e lá-vai-trolha, que contava com um ensaio muito interessante: nada mais, nada menos, que a nossa Xuxa num ensaio "caliente" para os anos oitenta, em companhia de sua "suposta irmã", as quais faziam o papel de fotógrafa e modelo-e-atriz.
E ainda ficam passando na internet aquele trecho do filme do Khouri.
Mas eu me arrependo de ter queimado essa revista apenas. Era simplesmente o caso de eu procurar terapia. Mas não... tinha que purificar-me dos pensamentos impuros. E o Allan Sieber ainda tira onda com aquele lendário "Preto no Branco" cheio de razão:

- Malditos Adventistas filhos de uma puta! Eu deveria processá-los por danos psicológicos irreversíveis!
- Você faria uma boa grana com isso.

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Muita gente quer ser americana. Morar em Boston, fazer uma graninha, quem sabe ter uma hipoteca, o Green Card e o direito de ter a casinha branca de cerca e gramado aparado, talvez filhos na Escola Columbine (que fica num condomínio "suburbia" de Denver, mas todo mundo acha que Columbine é o nome da cidade, o que é uma inverdade). ou morar de frente para o WTC, respirar ar de amianto e morrer lentamente com tuberculose e os Big Macs do Tio Ronald. Mas eu não. Desde pequeno, desde que descobri as garotas orientais, isso lá pela Primeira Série, eu quis ser japonês. Exceto pelo pinto pequeno e magro. Poder trocar de carro todo ano, morar perto da China e conseguir drogas mais baratas, ser psicologicamente instável e estar em boa companhia e, se um dia me desse na telha, poderia me matar e não teria vergonha nenhuma disso. Que beleza.

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Mas o princípio ativo não muda: ninguém quer ser brasileiro. Todo mundo dá o seu jeito de sair daqui, de uma maneira ou de outra.
Mas existem pessoas em piores situações: os bolivianos, por exemplo. Que querem ser americanos, mas antes precisam ser brasileiros porque, sinceramente, ninguém exceto os brasileiros se importa com um bando de cholos como aqueles caras que exportam gás e pó. Já brasileiros sabem fazer caipirinha, jogar futebol, sambar e ter ninfetas prostituídas como ninguém.

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Paradoxo-Tostines para o Humor Inglês:

"Eles fazem coisas boas por serem histriônicos ou são histriônicos por fazerem coisas boas?"

Monty Python era foda. Mr. Bean era foda. "Absolutely Fabulous" era um lixo, mas tinha quem gostava das barangas oitentistas criando uma filha aborrecente e mal educada. Teve até aquele cara do Monty que fez uma temporada em uma sitcom americana, que tinha a Brooke Shields no papel principal - passava no canal da Warner, e que foi uma mão na roda. "O Sentido da Vida" é o mais nonsense que existe e ainda sim é o que é menos prestigiado pelos conhecedores, que ainda ficam com "Monty Python e o Cálice Sagrado".
E ainda acham graça num "negão" careca que fica sodomizando a sua família semanalmente, diariamente na versão brasileira. Esse país tem que ficar mesmo com o "Porra Total" e "A Praça é Roça" todo sábado à noite mesmo.

Gravado em São Paulo, Capital, é o "Yesterday Night Live"!

Eu quero ser inglês. Não quero mais ser japonês.

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Quero Nuggets.

Com queijo em spray por cima?

E umas pimentinhas, por favor. Mas não muitas, eu tenho hemorróidas.

Pode deixar.

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Ele caminhava pela rua. Todo alegre. Tinha seu primeiro contracheque realmente gordo, estava a caminho do Templo, o maior restaurante de Baurulândia. Iria comer. Sentou na mesa e pediu o mení. Encontrou algumas coisas que não entendiam, mas ainda sim foi em frente. Apontou com o dedo para o cardápio e pediu com um francês desgraçado. Vinte minutos e duas cestas de pãezinhos depois, chegou o prato. Carne aparentemente acinzentada, como os bifes que sua mãe preparava quando era criança, com um suculento molho por cima, e umas folhas verdes decorando. Comeu o primeiro pedaço. O segundo. O gosto era meio metálico, mas ainda sim era tragável. Lembrou-se de mamãe e dos dois irmãos, que agora trabalhavam na construção civil, como engenheiros e ele como peixe-médio da Marilan.
Foi quando chegou na metade do prato, ele se deparou com a verdade inalienável: comia miolos de porco. Bem preparados, mas eram miolos de porco.

Ele virou a mesa e cuspiu na cara do garçom. Andou alguns metros e disse para si mesmo:

- Nunca mais como nessa porra. Prefiro o Bob´s.

Chegou em casa, e colocou no DVD pra rodar "Hannibal". Sentiu um pequeno alívio momentâneo antes de voltar à geladeira e comer novamente. Carne crua de uns hambúrgueres que deixara pro café da manhã.

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- Cara, você é muito deprimente. Não tem como ler essa sua merda de blog. Saudades dos tempos em que você causava de verdade, eu me lembro daquele outro muro de lamentações em que você xingou e comprou uma briga com um cara, chamando ele de nazista, quando você falou mal de todo mundo que conhecia da sua classe, quando você mandou sua ex tomar no cu porque ela tinha te deixado e contou todas as coisas que você fez, agora você é o maior farofa que eu conheço. Vai se foder, cara! Acha que vai longe com essas historinhas de Sonia Abrão? EU vi coisas melhores saindo de filmes pornô, caralho!

Ele usava uma camiseta da Avril Lavigne. Presente de alguma fodinha que ele teve, eu sabia daquilo - ele seria o cãozinho da madame de uma boa foda, sempre. Tinha uma barbicha que parecia saída do Arsenal, o personagem dos quadrinhos da DC modernos. Agora os personagens de quadrinhos fodem de verdade. Eu vi na revista, ele comendo uma grandalhona ruiva toda tatuada. Ele continuava a falar, e falar, e falar. Eu caminhei tranquilamente até o meu carro. Ele me seguindo, se achando o rei da cocada preta. Apanhei o canivete de caça. Aquele mesmo dos tempos de Bonete, o mesmo que ameacei os crentes para pararem de chutar a minha barraca. Ele continuava a falar, mas não viu o que eu tinha guardado pra ele. Enfiei a lâmina no olho direito da Avril. Sk8er Boi o caralho agora, vagabunda.

- Ficou calado por quê, espertinho? E se eu disser que eu sinto muito? E Muito? E MUITO? E MUITO?
PORQUE EU NÃO SINTO PORRA NENHUMA, SEU POSER DE MERDA! CU-DE-BURRO! FALA MERDA MINHA AGORA, DESGRAÇADO! FALA! FALA!

E depois de arrancar duas costelas do peito do cara com as mãos, por causa dos cortes da faca, comecei a interpretar o Coringa do arco "Advogado do Diabo".

Dois dias antes de conseguir a minha cela especial. Acontece. Sempre odiei advogados.


Porque todos nós temos um dia de Jack Napier.

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