quarta-feira, 8 de junho de 2005

New Age #1: Resenha do Dia

Maruo e a Libertinagem Moderna dos Quadrinhos – “O Vampiro Que Ri”


Histórias não se contam unicamente por palavras; principalmente histórias dotadas de uma vivacidade e uma “crueza” dignas dos mais célebres textos libertinos da pré-Revolução Francesa. Suehiro Maruo, cartunista underground do mercado de quadrinhos orientais (os famosos mangá) é apresentado ao público brasileiro por uma de suas mais aclamadas obras: “O Vampiro Que Ri” (Ed. Conrad, 248 pgs).
Seu enredo não se limita ao suspense thriller de um jovem que se torna amaldiçoado pelo vampirismo através da mão de uma velha corcunda, toma proporções maiores ao mostrar o “Wild Side” da cosmopolita Tóquio, além da paixão pela tecnologia e pelas colegiais com uniforme de marinheira, chavões do imaginário ocidental.
De jovens colegiais se aproveitando das taras dos homens de meia-idade para conseguir alguns ienes a mais, passando por jovens que se divertem em espancar um mendigo; um palhaço vivendo na miséria que não pensa duas vezes antes de violentar uma criança. Prostitutas e crimes cometidos pelo prazer da violência e uma onda de assassinatos misteriosos. Soaria como uma das velhas canções de Lou Reed e seu famoso grupo Velvet Underground, mas tudo está lá, para mostrar o lado selvagem da moralista e tradicional sociedade japonesa.
Entretanto, o traço e o roteiros de Maruo estão muito além da rebeldia dos pupilos de Andy Warhol, e freqüentemente é associado aos textos corrosivos do célebre Marquês de Sade, tanto é que as principais publicações sobre a arte dos comics na Europa se referem ao autor japonês como “O Marquês de Sade dos quadrinhos”. Muito próximo dos antigos muzan-e (quadros de atrocidades e críticas sociais publicados no Japão do século XIX) do que de seus equivalentes ocidentais (Robert Crumb, Gilbert Shelton e Harvey Kurtzman), das peças do grand guignol francês e das obras anticlericais da Revolução Francesa, seu trabalho aflora no lirismo da violência e da lubricidade, como se fosse um Pulp Fiction em papel e tinta.
A carreira do autor acabou por refletir o seu próprio estilo. Avesso ao “sonho japonês”, abandonou o colegial pela metade e chegou a passar uma temporada no reformatório por alguns roubos em lojas; após isso decidiu se tornar um desenhista, mas seu trabalho foi rejeitado pelas principais revistas especializadas no Japão sem muita explicação. Encontrou seu meio de sobrevivência no submundo do quadrinho erótico. Em entrevista anexada à segunda edição brasileira de “O Vampiro Que Ri”, afirmou que nunca encontrou mais liberdade de criação que nos dias em que trabalhou com o gênero pornográfico. Após participar de um coletivo de vanguarda de quadrinhistas japoneses Garo, a fama veio para o polemico autor.

Sem comentários: