domingo, 12 de junho de 2005

My Bloody Valentine. (No Sentido Engleesh da Palavra)

N.A.: Mais um conto para comemorar o Dia do Consumo II (o primeiro é o Natal). Então, eu pensei em retratar como seria um romance "livin´ la vida tosca". Eu sei que eu sôo monótono quando eu pego pra escrever assim, mas fazer o quê? Cinema de autor, meu bem.

***

"Maldito dia capitalista". Ela me dizia isso sem um pingo de remorso ou de autodepreciação. Imprimia uma força, uma aura de solidez que eu vi em poucas vezes. Ela não era uma dessas costeletudas que falam em "poder para o Povo" e todas essas idiotices e sonhos intangíveis que existem unicamente nas cabeças malogradas dos sonhadores e fracassados. Não. Ela tinha estilo. Ela sabia que não havia espaço para os sonhos, por isso se entupia de anfetaminas para ficar acordada enquanto escrevia cartas e mais cartas para revistas e jornais, enquanto escrevia contos e mais contos para o ar, empilhando-os numa caixa de sapatos. Enquanto ouvia Dizzie Gillespie e curvava sua cabeça sobre o meu colo, dizendo "hoje é sua noite de sorte, gartotão". E eu ria daquilo tudo porque parecia falso demais para ser real.

Ela nunca era a mesma pessoa. Seis meses antes de eu conhecê-la, soube que andava de bata indiana e que só se alimentava de luz solar. "Hippies anoréxicas, é só o que me faltava", pensei na época quando comentaram sobre ela na minha casa. Seis meses depois, ela estava na Parada Gay. O que eu fazia na Parada Gay? Eu tinha esquecido que existiam merdas como essas. Eu esperava comprar umas camisetas com aquelas estampas indianas que vendem nos cantos escuros perto do Trianon, quem sabe uns CDs piratas no Stand Center, só que eu trombei com duas minas se beijando. Ela estava no meio.

- Oi Rafa, o que você está fazendo aqui?
- Putz, eu vim comprar uma camiseta. Daquelas hippies. E você?
- Ah, apreciando o show, né?
- Bom proveito então, né?

Até aquele momento, eu não sabia que bissexualismo era moda. Maldita novela.

Quando começamos a sair, ela usava cabelo verde e gostava de ir n´"A Lôca". No terceiro encontro, depois de usar todo o seu repertório (variado e canastrão) sobre as culturas alternativas e música-eletrônica-encontra-the-eighties, a garota se cansou de ser paquerada pelas outras meninas e pediu um canto para sentar no ônibus de volta pra casa. Morávamos no mesmo lado da cidade, só alguns quilômetros de distância. Coisa percorrida facilmente com um camelo. Aí entrou nessa de "Submundo Britpop e companhia". O que eu não reclamava, porque era infinitamente melhor ter como companhia uma mina com olheiras e ouvindo os choros desdenhosos de Liam Gallagher que ouvir "Hare Krishna Hare Hare" de uma porca que não raspa as axilas. Ela me fazia uma cortesia e colocava o Bird pra tocar quando queria me agradar. Sabia fazer uma macarronada que, puta que pariu, nem no bendito restaurante do Milton Neves eu teria encontrado melhor. Eu comi lá. E não encontrei o cara; eu queria fazer um "Pedala Robinho" nele. Uma pena.

Depois de alguns meses, duas viagens (uma para Curitiba, outra para São Tomé das Letras, "só pra ver como é que a gente reage"), duas ou três ocasiões em que trocamos presentes (numa delas, ela me deu uma camiseta de estampa hippie, me lembrando da ocasião insólita na qual nos encontramos), acabou. Como tudo acaba. Ela saiu sem ressentimentos. Como uma dama de Londres que deixa seu palácio de verão para voltar para a vida dela.

She had so many grace in herself that even when that cunt cut me off me i was glad. She was my bloody valentine. Desculpem pelo inglês mela-cueca.

Sem comentários: