quarta-feira, 15 de junho de 2005

"A Inevitabilidade do Caos"

Estive pensando nesse termo quando eu o inventei para designar o fator em comum para quase todas as minhas histórias (pra não dizer todas) para uma amiga tempos atrás. Bom, como estamos a pouco menos de três dias para completar um ano de "The Coke Co", lancemos um conceito bem simples, comparado ao roteiro dos esquetes de Waking Life...

'A Inevitabilidade do Caos' - Teoria e Retrospectiva de um ano de "The Coke Co.", por André Diniz

Este conceito se aplica da seguinte forma: Existe uma força constante e invariável que contribui para que tudo o que seja construído seja destruído. Murphy, Wyrm, Zica, dê o nome que quiser. Algo que acaba por perseguir a humanidade à espreita e que acaba sendo um fator de mutação de um quadro vigente. Loserismo.

Como nos exemplos dos contos: uma declaração de amor na hora errada que custou a Ivan Katsuyama a última chance de redenção em Dois Céus. O acaso do jovem inconseqüente que atingiu em cheio a namorada de Rosvaldo a caminho de sua casa em O que Sobrou do Inferno. Ou o pileque homérico que fez com que Juca Martins perdesse de vista seu pupilo pós-libertino em Salary Man. Apenas "coisas que acontecem e caras que são nada mais que fracassados", aos olhos dos mais desatentos.

Perder é quase um ato comum hoje em dia, por mais que não queiramos admitir esta verdade. Nos acostumamos com a derrota. Fazemos piada dela. "Vou abrir uma barraca de nuggets em Jacareí quando esta faculdade acabar", costumo bradar aos ventos quando vejo que as coisas não estão indo conforme os planos iniciais. O próprio Beck cantou com uma mão cheia de desdém a figura do "perdedor americano", tão abominada lá quanto a própria morte. Nos acostumamos a nadar rodeados de tubarões, com uma picanha amarrada em nosso pescoço. E esse conformismo acaba nos cobrando um preço às vezes salgado, pelo menos na minha humilde opinião.

Mas da inevitabilidade do caos, da eterna "margem de cinco porcento ou mais de derrota", aprendemos a dar mais valor, mas nada de Frijtof Capra neste contexto. Fala-se em tirar onda, levar o Ceifeiro Medonho junto conosco para o Inferno só de raiva, forçar o empate, trata-se de aprender a gingar das balas e dos andaimes que caem sobre nossas cabeças todo santo dia.

Por quê existiriam academias de ginástica se os pesos fossem leves demais?

De The Breakfest Club passando pelos mais diversos setores da indústria cultural, pouco foi-se utilizado para expressar o lado de lá dos exércitos vencedores. Tabu maior que este, apenas o canibalismo, a poligamia e o incesto na atual sociedade moderna. Trata-se a derrota como se fosse uma chaga. Claro, ninguém gosta de sair no prejuízo. Darwin já mostrou isso. Só nos falta um pouco mais de "taoísmo". Desapego. Levar o que não se pode carregar? Foda, hein. Ainda prefiro uma garrafa d´água, um walkman com pilhas novas, e um livrinho de bolso do "Mate-me Por Favor".

E onde entra essa merdalhada toda nas histórias que eu costumo escrever? O "Cinema de Autor"? Bem, nesses casos eu costumo acreditar que quando se escreve, se fala, se canta sobre coisas que acontecem normalmente (ou não-tão-normalmente), expiamos grande parte dos nossos temores internos, soltamos um balão-de-ensaio de um mundo que gostaríamos de conhecer unicamente pela janela do ônibus, mas que infelizmente está lá bem diante dos nossos olhos. Ficcionalizar a realidade, torná-la dobrável aos olhos de nossa mente. Sonhar comedidamente, sem perder o gosto pela aventura. Mas, assim como a Matriz dos filmes de ficção científica pós-modernos, as coisas possuem suas regras. E foram essas regras que eu acabei por implantar gradativamente, história após história. Dois Céus ainda é muito inocente neste quesito, quando foi lançado (mais tarde, nos meus ensaios caseiros de fundo de quintal, eu acabei por mudar duas ou mais coisas do que estava escrito originalmente, colocando mais ficção e menos realidade autobiográfica naquilo tudo). O que Sobrou do Inferno é o exemplo Naturalista de tudo aquilo que foi escrito. Sobrou sal no molho, o que acabou tornando-o rigorosamente intragável. (Houve até o caso de uma amiga que, ao ler uma parte do conto quando eu o postei originalmente, achou que eu estivesse falando a verdade e comentou me consolando pela morte da personagem feminina. No momento eu me senti orgulhoso em escrever "naturalmente", mas pensando bem, eu estou escrevendo uma história de ficção realista, não uma parábola do R.R. Soares!)

Lutamos com a Lei foi mais um caso de história onírica completa que acabou rendendo um pequeno roteiro, com um final ainda com muitas pontas soltas (ou oportunidades e variáveis, dependendo do ponto de vista do prisma). Era a primeira vez que eu escrevia sci-fi, então ficou ainda muito aquém de um Blade Runner (se bem que duelar com "Do Androids Dream About Electrical Sheeps?" seria, sem dúvida, uma luta covarde), mas foi apenas naquela vez que eu me aventurei com o fantástico absurdo.

Código de Honra foi o meu primeiro licenciamento, das histórias de Régis Guerini (http://quequeeissomeu.blig.com.br). Ricardo Sampaio - o detetive e personagem principal da trama - era uma síntese dos romances policiais de Raymond Chandler com o universo cáustico de Marçal Aquino (com todas as salvaguardas ao trabalho de Aquino, uma obra-prima comparada ao nosso esforço criativo) e tentei pegar um pouco daquilo tudo para o nosso guisado de idéias (confesso que me inspirei no Máiquel de "O Homem do Ano" amplamente para construir Miguel. Não é apenas Nobuhiro Watsuki que "rouba" personagens alheios). Sampaio teve "uns toques de Spirit, uns toques de Constantine", nas próprias palavras de Guerini ao ler os primeiros episódios da história do ex-policial que acerta as contas com seu algoz na Corregedoria da Polícia Civil. Abria espaço para uma "tarantinada", a criação de um panteão de personagens que poderiam se confluir num momento propício.

Com isso chegamos a Salary Man, o último módulo deste bravo mundo novo. De Lobo Solitário, passando por Sade, Sergio Leone e as patuscadas de mestre-e-aprendiz de qualquer filme de artes marciais melodramático, chegamos ao resultado do produto de um novo-velho, com a experiência dos foras de Ivan Katsuyama, a manha de Rosvaldo Martins e a desesperança existencial de Ricardo Sampaio. Juca Martins é a síntese de todas as lições tiradas. Mas, como bom ser humano que é, não é portador da verdade absoluta, apesar de se esforçar em passar seu legado ao jovem Alan, esterótipo do adolescente acomodado e "semivirgem" dos tempos contemporâneos. E novamente se aplicam as leis da física e a "inevitabilidade do caos" e as coisas saem do controle no quarto final da história, quando o batismo de fogo chega e as coisas não chegam ao resultado que se espera.

Esta pequena novela ("novela" pelo fato que quase se consumiu seis meses para se escrever pouco mais que nove capítulos, um recorde de morosidade nos termos de literatura online) surgiu como outro sonho, mas se trataria de um "preâmbulo para o Sonho", já que tudo começava no instante em que os pais de Alan descobriam que o seu tio inconseqüente o levou para um pub comemorar os seus quinze anos e nunca mais voltou vivo para casa, e como o irresponsável tutor tem de lidar com o peso da culpa e de sua vida pregresssa. Mas, como ainda não tenho tanto talento para escrever uma peça de tamanha densidade dramática (precisaria realmente ser um Dostoievski para tal), deixo as coisas como estão e depois eu penso nisso.

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