domingo, 1 de maio de 2005

Trilha Panorâmica. (Tentativa de ficcionalizar as vidas alheias)

Fazia algum tempo que eu não passava por aquelas bandas. Quinze anos para voltar, pra ser mais sincero. Mas aquela noite de inverno, com férias que tirei junto com minha "namoradinha" (e aqui uso o diminutivo apenas por carinho, afinal de contas ela ainda está na faculdade. Eu havia prometido a mim mesmo que ficaria com a garota mais bonita da faculdade, mas apenas não disse quando). Mas naquela noite, eu não iria fazer nada com ela, nem comprometer a minha imagem de respeitável escritor de crônicas. Apenas precisava tomar um pouco de ar na cara. Ar frio.

Quinze anos desde que traçara mal e porcamente as minhas linhas para me desviar delas completamente. Comecei achando que eu realmente eu me tornaria alguém diferente de tudo o que eu tinha visto no espelho pelas manhãs antes de ir pra escola. Havia uma avenida que era mais ou menos como a veia aorta do centro da cidade, aonde todas as outras estradas convergiam de uma forma ou de outra. Instintivamente, eu tive a vontade de percorrer com uma jaqueta com capuz e meus tênis de corrida, gasto em uma parte da sola apenas.

Comecei pelo "Red Light District". Duas da manhã. Eu lembro de não serem raras as vezes em que eu buscava um pouco de adrenalina e um pouco de endorfina naquele balde de lixo. E não eram raras as vezes que eu fazia o mesmo trajeto que eu faço agora, só que com um pouco mais de estrelas nos olhos pelos reflexos do orgasmo capitalista e pela adrenalina de "sair e caçar a minha comida". Barebacking, como dizem agora. Nos tempos da brilhantina. À la James Dean em Juventude Transviada, mas sem os carros e sem o rochedo. Uma morte, relativamente, mais inglória que despencar de um barranco a 150km/h rumo à uma morte com um hiato breve de dor. Mas, eu não tinha consciência daquilo. "I wasn´t afraid of anything in this world, there´s nothing you can throw at me that I haven´t seen before"..... Depois as coisas aconteceram normalmente e eu abandonei as minhas "idas ao Penhasco". Lembranças são feitas disso, certo?

Passei por perto do lugar por onde tive uma das mais paradoxais passagens por aquela cidade. Nunca eu vivi tão intensamente e, ao mesmo tempo, de forma tão vazia. Imagine um "Thirteen" versão universitária, com menos drogas em variedade (e mais em quantidade) e com mais álcool. O que será que aconteceu com aquela menina que agiu como minha namorada por apenas duas vezes antes de ir embora sem pedir a conta nem nada? Eu ainda não entendo como essas coisas acabam acontecendo comigo. Unicamente "comigo". Mentira. A minha história, por um prisma, era igual à de muitos outros. Nerds, carentes e estupidamente idealistas.

A caminho do próximo "checkpoint", eu tentava pensar onde é que tudo tinha se embolado. A sinfonia da minha biografia se tornara um jazz do crioulo doido. Da faculdade de Relações Públicas para Sociologia. Para um concurso de aspone nos Correios. Para camelar incansavelmente durante dois anos inteiros em busca de quinze dias de férias, que seriam passadas em Camden Town (eu queria dar o troco à minha maneira. Fazer o quê.), para conhecer uma espanhola que consumiu meu coração e quase mil e quinhentos e oitenta euros durante quatro meses na Cidade de Sua Majestade. Para voltar pobre e fudido, com a pose que os britânicos me ensinaram com tanta eficiência, alguns livros, discos e um inglês até que passável (apesar de ter aprendido basco com uma facilidade até que bizarra. Mas pra quê diabos eu iria usar basco? Nem que eu fosse uma adolescente querendo escrever em código....) , o que me levaram novamente aos bancos para terminar Sociologia. Para as aulas de Filosofia no segundo colegial, minha pose de intelectual atormentado, ensinando velhas merdas para cybermanos que se interessam em usar a jaqueta do "Sobrevivendo no Inferno" em pleno Shopping Morumbi. Para a garota sardenta e de óculos de acetato que tanto me lembraram o grande amor que tive e que aprendi a perder depois de uma infantilidade digna de "Dennis, The Menace".

Não que eu reclame. Me pagam bem para ser um canastrão, seria pior se eu fosse pago para sustentar outros tipos de coisas, mas a pergunta: "onde é que a minha vida se tornou uma jam-session de Chet Baker?". Ops, novo ponto de checagem.

(eu acho que isso continua num próximo episódio)

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Eu acho que devo um final para "Salary Man", mas ainda o bloqueio para o final que eu quero propor à essa novelinha tosca impera. Chamem o Walcyr Carrasco. Ele é especialista em desentupir essas coisas. Mas eu acho que este blog não terá muita vida daqui pra frente. Só prometo aos meus 2¼ leitores que vou continuar o trabalho. De uma maneira ou de outra. Poemas bestas com feras do campo é o que vocês não irão encontrar aqui. (A.D)

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