quarta-feira, 18 de maio de 2005

Último Episódio de "Salary Man".

N.A.: Ultimamente tenho preferido qualidade à quantidade. Bem recentemente. Estava tendo um fluxo de idéias toscas para salvar "The Coke Inc." e "Jam Sessions And Solos" do fracasso. Salvar um blog-diarinho da falência. Quem diria. Mas eu decidi put all on the line de uma hora pra outra para ver se eu deixo de cometer alguns erros (isso mesmo o que estão pensando. Vou fazer uma camiseta "Nuke the Chinese Pandas" assim que eu tiver tempo, contatos e dinheiro para tal). E resolvi deixar de frescura e bater o prego no "Salary Man", afinal de contas estava mais embolorado que o café que deixei na garrafa por duas semanas e vi pequenas ilhotas de fungos no mar negro da infusão. Espero que com isso melhores idéias venham. Queimar canavial, entendem?

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Depois do lance que aconteceu na casa do japonês, eu sabia que tudo estava indo pro vinagre. Sad End. Puta merda.
Estava em casa quando eu vi que não encontraram onde eu guardava a minha farinha. Ainda bem, eu precisava naquele momento. Com os cumprimentos da Cíntia. Foi quando a Tina estava com a luz acesa.

"Juca, me liga. Quero saber se isso não é piada, por favor!"
"José Carlos, aqui é o dr. Carlo Rodriguez, delegado do DHPP e pai da sua vizinha, Cíntia. Escuta, eu quero dizer que sou seu amigo e que gostaria que retornasse essa ligação o quanto antes ou entrasse em contato com minha filha se possível. Preciso que venha para o Inst...."

Depois disso tudo ficou meio foda de entender. E naquele momento o telefone tocou novamente. E não era o meu amor, com uma puta certeza disso.

- Juca, aqui é a Vanda. Onde tá o Alan?

Eu não tive coragem de falar nada. Eu apenas desliguei o telefone e puxei o fio da parede. Me senti meio que suspenso por fios invisíveis no ar, como se a própria matéria que compõe os pesadelos se fizesse presente. Não era eu, mas o Sandman operava através de mim.
Resolvi cortar a burocracia com o pai da Ciça e fui direto pro IML. "Alan Martins Junqueira". Com todos os documentos. E com o cartão de pânico que a mãe dele fez quando saímos de Mairinque. Com o telefone da casa deles, o telefone da casa do meu pai e o meu como o terceiro da lista de emergência. Eles realmente não confiavam em mim; mas é claro - quem confiaria num contadorzinho ex-viciado que mora num apartamento medíocre em São Paulo?
Ele estava lá. Os exames do fígado acusaram birita, maconha, e cola-de-sapateiro. E a Val estava na mesa do lado.

"Atropelado por um carro. Estava saindo de um prédio, procurando ajuda para aquela moça. Parece que ela começou a ter um ataque e ele se deseperou. Saiu com as calças apenas e foi atingido por um carro cinza-chumbo e foi dar de cabeça no meio-fio."

Que ironia. Eu me lembrei do momento que contei para ele sobre a Carlinha, a "menina parecida com a Magda Cotrofe". Uma puta de uma rameira. Eu lembro que eu fui o sétimo da turma a comê-la. Isso porque eu era o mais fracassado de todos. Mas eu me sentia um homem de verdade. Eu me sentia flutuando. Novamente. Esse sentimento desgraçado de êxtase que acaba nos cegando. Como um buraco ventilado na minha cabeça.
Igual ao que senti no último momento.
Eu não me lembrei de muita coisa. Eu só me lembrei de tudo virar um montinho de sujeira no canto da sala. Emprego. Vizinhos. Família. Respeito. Liberdade. Tudo por causa de um canivete que eu acabei enterrando no peito do Aoki no meio do belo estabelecimento que ele mantinha. Francamente, eu não sei mais o que foi que me matou. Se era a tremenda felicidade que me invada quando eu enfiava aquele punhal, tentando tirar uma costela ou duas do dono do Marea cinza-chumbo levemente riscado no capô que estava estacionado na entrada da boate, se era a felicidade que eu tinha de ter enfiado uma faca pela traquéia do japonês, ou o olhar aliviado que passei para o Cosme, enquanto ele fazia mira em mim com sua Taurus PT antes de puxar o gatilho.
E antes de cair, eu só me lembrava da pergunta que eu tinha feito para o garoto:

- Alan, consegue aparentar que tem dezoito?
- Se eu ficar de boca fechada...
- Hoje tu vai saber o que é vida de verdade.
- Onde?
- Shinjuku.
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Fim (finalmente)

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