quinta-feira, 17 de março de 2005

"My fucking Hero!"


Essa é uma história paralela de "Código de Honra" (a história do detetive, lembram?), contada a partir do Miguel, o Atirador. Enquanto o matador se prepara para fazer mais um serviço, desta vez indo de encontro a Ricardo Sampaio, ele decide se distrair fazendo aquilo no qual se julga o melhor.
(Manu Chao - Me Gustas Tu)

Fui para a sacada do meu prédio. "Meu" é modo de dizer. Fui pago para estar lá uma outra vez, mas agora eu estava porque queria estar lá. Eu estava com algo no meu estômago. Algo ocupando espaço demais. Precisava extravasar.
Rifle Mauser K98 7.92mm fabricada em 1937. Dos tempos do Reich. Com um escopo de 3x. Uma preciosidade. Consegui como pagamento de um colecionador de armas em Salvador depois de um serviço - eu sempre tive fascinação por armas, assim como outras pessoas possuem admiração por espadas antigas.
Meus heróis no começo eram os atores dos filmes de faroeste. Sergio Leone, aqueles filmes italianos. Eu lembro que entrava escondido no cinema pra ver os filmes de "farveste". A pontaria perfeita. Principalmente naquelas cenas clássicas de guerrilha nas cidades. Um cara com um Colt 45 derrubando um piaba do alto de um sobrado de madeira, era demais. Foi aí, mais ou menos, que eu decidi ser um matador.
O tempo passou, eu fui pro Exército. Na verdade era o Tiro de Guerra. Mas ainda sim era legal. Treinávamos com velhos Springfield 02, horríveis e incapazes; era apenas uma desculpa para dizer que atiramos com armas de verdade. Conhecia armas mais reais nos parquinhos em que eu treinava atirando nos patos de latão.
Lee Harvey Oswald. Eu confesso, roubei essa de "Nascido Para Matar". 'Lee Harvey Oswald atirou com um rifle italiano, há mais de quinhentos metros, com a visão encoberta e conseguiu atingir o seu alvo. Isso porque ele era dos Fuzileiros!'. Eu já me metia com algumas contravenções, tentava inutilmente ser da Polícia Militar. Licensa para Matar - era tudo o que eu precisava naquela época. Mas ainda não tinha tirado a vida de ninguém.
Foi quando a minha chance apareceu. Eu andava com um calibre .22 na cintura, mais um pião de fábrica armado, lá pelos lados de 1985 quando estava bebendo cerveja num bar no centro da cidade quando um mendigo me pediu esmolas. Eu neguei e ele atirou merda em mim. Me virei e dei três tiros nele. Pá! Pá pá! Naquele momento, me senti com a alma lavada. Sabia o que eu tinha que ser.
E um, e outro, foram me levando até aqui. Passei cinco anos numa cadeia em Goiânia por ter me metido num roubo a caminhão, fora isso nunca sequer suspeitaram de mim. Andei o mundo. Me tornei quase invencível. Imortal, por um momento eu achei. Mas naquela hora eu precisava me sentir um Deus. Era o meu vício. Largara a cocaína há uns cinco meses, precisava de mais adrenalina.
Rifle carregado. Tinha uma posição invejável. Local barulhento, estava num "esqueleto de aço" abandonado, com uma avenida e tudo o mais que poderia me servir naquele banquete exótico. Tinha cinco balas. "A Mão de Deus", como um colega costumava dizer. Janela para o Norte. O primeiro alvo seria numa rua próxima. Uma mulher com um celular no ouvido e bolsas de compras. Vi pelo visor que era da Daslu. Bang. Era um barulho seco. Atingiu o peito da mulher facilmente. Meu coração quase saiu do peito depois que a bala saiu da câmara com o roçar quase erótico do ferrolho dentro da câmara. Mas precisava ser racional. Poderia atirar nos outros que a socorreram Saí do quarto ainda no reboco e subi mais dois andares.
Janela para o Sul. Um prédio vizinho. Um homem tomando banho. Lavabo bonito, parecia que tinha um box atrás dele. Deveria ser advogado, gerente de algum banco. Alguém com dois filhos viciados em farinha, uma mulher que usava um vibrador para se excitar, uma amante coreana que colocava-lhe as bolinhas. As benditas bolinhas, não as esqueço depois que vi um filme tailandês. Número dois. Bang. O rifle gemia de prazer toda vez que eu o engatilhava. Talvez fosse uma pequena falta de óleo, mas isso não importa. O tiro fora perfeito no crânio, estilhaçara o vidro do box, quase se podia ver o buraco na parede. Eu confesso que fiquei excitado. Imaginei um cu de mulher. Sou fanático por cus, como todo homem de verdade o é.
Faltavam três agora. Esses dois primeiros eram fáceis, agora eu precisava de algo mais interessante. Algo distante. Foi então que o avistei. Pit bull. Daqueles de nariz vermelho. Ele vinha conduzindo seu dono de cérebro de ervilha pela rua, quando encontrou um mendigo e começou a latir para ele. Barulho insuportável. Nunca gostei de bichos, exceto por meu pinscher de estimação. Aquele seria um tiro difícil, mas se eu conseguisse.... Bang. zzzzziiiiipppp..... e acertei a corrente da coleira do desgraçado. Essa não foi pelo prazer, foi pela diversão mesmo. Naquele momento, senti o que poucas pessoas podem descrever com acuidade. Orgulho de ser o que eu era, e ser bom como eu era. Merecia ser canonizado depois daquele tiro: "São Miguel de Marechal Hermes, o Santo Padroeiro dos Executores".
Virara o cabo do Bojador, agora a dor começava a ir embora. Tomava conta o meu êxtase. Aquela sensação que vem com o dever cumprido. Estava afiando os meus sentidos para poder fazer mais um serviço. Agora para aquele almofadinha de outro dia. Eu até pagaria pra ver a feição no rosto dele depois que matei o pregador. Acho que ele jamais vira alguém como eu. Uma massagem em meu ego, era muito bem-vinda.
Foi quando decidi que só faria mais uma intervenção e seguiria para meu objetivo. Afinal de contas, tudo é válido por um punhado de adrenalina e alguns goles do melhor uísque que eu já tomei em minha vida. Tirei as outras duas balas e coloquei apenas uma de volta, depois de um beijo de despedida. Aquelas balas de Mauser eram raras, e as usei poucas vezes na vida. Precisaria ir pra Salvador mais uma vez.
Mais um tiro apenas, agora do terraço do prédio de quinze andares. Mais longe que Lee Harvey Oswald. Acho que até onde o alvo estava ia mais de mil metros. Um casal de namorados. Dentro do carro. Eu o vi enfiar a mão dentro da blusa dele enquanto abria a calça com a outra mão. Atravessou o sinal, rapazinho. Se fosse a minha filha.... Bang. Atingiu o capô do carro. Mau sinal. Ele saiu de lá e andou mais alguns quarteirões até encontrar a socialite morta. Uma pena.
Tive que ficar o resto do dia e da noite até que a comoção passasse. Ricardo Sampaio viveria mais um dia.
****

Pelamordedeus, essa história é puramente ficcional. Não me encham o saco.

3 comentários:

Anónimo disse...

Pancada esse post! Muito massa, messsmo!!
Tu viu? Reaprendi a comentar..
;/

Anónimo disse...

Será mesmo que é ficção ou isso é um retrato futurista de André DIniz???

saddanicus disse...

eu já disse q te odeio?! filho da puta escreve ´pra caralho!!!