terça-feira, 15 de março de 2005

Apenas mais uma história.

Saulo era mais um dos muitos jovens que acabaram de voltar de sua pequena jornada ao redor da Europa, depois do diploma em Medicina. Anhembi-Morumbi. Visitou a Espanha, Holanda, França e só não foi até a Alemanha porque teria que voltar pra Holanda mais uma vez para apanhar os comprimidos de E que tinha combinado com seus amigos do clube. Conseguira o contato por um fórum de computadores underground, não era idiota para usar a moda do Orkut para conseguir suas drogas.
O contato estava acertado, o modo com o qual entraria no país com as boletas era deveras simples: dentro de uma câmera fotográfica, devidamente alterada e dentro de outros equipamentos eletrônicos devidamente lacrados e mascarados. Tudo ia bem. Decidiu então passar as últimas horas na Holanda divertindo-se do jeito que melhor conhecia - misturando drogas com álcool e mulheres.
Desde os quatorze anos era um jovem desregrado. O pai era desembargador e a mãe era psiquiatra. Ela mantinha um armário com remédios de venda controlada dentro do guarda-roupas. Havia duas trancas. Uma com chave e outra com senha. A chave ficava perto do vibrador (que compartilhava com seu marido). A senha era 928, a data de aniverário do filho único. Aos dezesseis fora enviado para uma clínica de reabilitação. Perdeu cinco provas finais e uma namorada, filha de um proeminente advogado. A sua ex se amigou com um traficante de cocaína de sotaque portenho.
Desolado, entregou sua alma para a farra. Descobriu a música eletrônica. Se tornou um famoso DJ do circuito da noite paulistana. Trepava com modelos em ascensão no café da manhã. Almoçava bolinhas, e jantava cocaína, antes de ir pra farra. Sua discotecagem era cara e famosa. Deu as cartas por uma hora na XXXperience. Só não participou do Sónar por questões políticas.
Mas agora ele estava no saguão do aeroporto de Amsterdam, a caminho de sua terra-natal com algumas amostras de som, equipamento de som e mais de 200 comprimidos de Ecstasy.

- Hello. I´m Fernando Martinez. Flight 916 to São Paulo, please. I´ve come to the check-in.
- Just a minute, sir. Here. Right on time. Gate 16-B. South Wing. Have a good flight.
- Thank ya, honey.

Aquele era o momento de maior tensão. Mas ele não conseguia suar nem demonstrar medo. Seu cinismo era algo digno de homenagens pelos mais canalhas. O equipamento eletrônico não passou pelo detector por Raios X com medo que pudesse danifiar o aparelho e render mais uma multa para a companhia. Passaram com algo parecido com o Patife depois de tocar na Alemanha, era o que diziam.
Foi aí que algo aconteceu. Um pequeno bug no sistema do controle de bagagens. A pressa de uma operadora dos cartões de embarque. E a piração do nosso jovem.
Apressou-se para chegar ao portão de embarque. nem olhou direito para qual deveria, estava ocupado demais em seus pensamentos pensando no quê a Polícia Federal iria imaginar se encontrasse uma pick-up de som recheada de E no Aeroporto de Congonhas. A pressa da operadora em acabar com aquele pesadelo que era o seu turno e voltar para os braços peludos de seu namorado cantor de reggae. Apanhou o cartão sem muito se importar com o quê estava escrito nele. Fernando entrou no avião sem fôlego e caiu em sua poltrona de primeira-classe.
Acordou horas depois com o sol em seu rosto. O executivo em seu lado pediu mal-educadamente que fechasse a porra da janela, pois tinha uma reunião importante em Kuala Lampur ainda naquela tarde e não queria estar com a cara amarrada.
"Fernando" entrou no avião errado. Tudo começou a girar dentro de sua cabeça no compasso da batida trance, o momento em que seria descoberto no sudeste da Ásia com drogas e todo o seu mundo foi desmoronando numa questão de segundos. Naquele momento, tudo o que ele fez foi pedir à comissária uma garrafa de água mineral e rumou com sua câmera até o banheiro da primeira classe.
Duas horas depois, a pedido de uma socialite filipina que voltava naquele mesmo vôo, foi encontrado o corpo de Saulo Albuquerque Herrera sem vida. Overdose. Seu corpo foi arremetido para o Brasil doze dias depois, após uma briga entre a família do morto e a companhia de aviação, que alegava que o DJ havia se matado em espaço aéreo internacional, portanto não era responsabilidade nem dos holandeses, nem dos filipinos, e muito menos da companhia, pois além de ser enquadrado no crime de tráfico internacional de drogas, era também um falsário ideológico

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