quinta-feira, 13 de janeiro de 2005

Juca volta da tumba. "Salary Man".

Episódio: "Abandon All Hope"


Chegamos era mais ou menos umas onze da noite. Deixei o carro uns dois quarteirões antes de chegar no Shinjuku. Ordens da casa: apenas carros de marca deveriam ficar na garagem da boate. Filhos da puta. E além do mais, aquilo nem era um Bahamas da vida. Mas ainda sim as mocinhas eram de responsa. A rua estava tranquila naquela noite, não costumava ter muito movimento ali já que haviam outros clubes melhores na região e as piranhas do trem-da-alegria costumavam ficar nas imediações de lá.
No caminho encontramos uma velha conhecida minha. Eu a conheci numa saída dessas pela noite e acabamos ficando estranhamente íntimos. Uma morena, olhos verdes, veio de Santa Catarina. Valéria, Pietra nas ruas.

- Oi, Juquito! Que saudade sua....
- Como você tá, minha alemãzinha favorita? Ahh, agora as coisas vão pra frente, você vai ver...
- Quem é o rapaz?
- Meu primo, ele veio de Mairinque para estudar aqui uns tempos.
- E como é que você se chama?
- Alan, muito prazer....

(ele falou meio que com a boca fechada, com medo de deixar passar aquela voz esganiçada de adolescente em puberdade. Eu não faria diferente. Até que ela gostou, esboçou um sorriso para o garoto.)

- Alan, quantos anos você tem?
- Tenho dezoito... mas desloquei o queixo numa briga... por isso estou falando assim.....
- Toma tento, muleque.... - eu falei. - Joga aberto com a moça...
- Mas ela é só uma pu-

(*SHTOC*)

- Ela é uma mulher. Mal aí, Valzinha. O cara é capiau. Não tem ainda aquele "jeitinho" com as mulheres, sabe....
- Tudo bem, eu até que gostei dele. Escuta, só porque estou aqui não significa que eu não saiba fazer as coisas do jeito certo, tá legal?
- Desculpa mesmo.
- Val, a gente vai fazer o seguinte: vou dar um pulo no Aoki, resolver umas coisas com ele e, se estiver um porre, a gente sai pra tomar alguma coisa, beleza?
- Tudo bem, eu acho que não vai ter nada aqui mesmo essa noite. Hoje tem jogo, o povo deve estar ou em casa ou no Photo. Mas não demora não, hein?
- Belê. Se cuida, hein?

- Juca...
- Fala.
- Por quê me deu um tapa na cabeça?
- Pra você aprender uma coisa.
- Mas eu odeio que me dêem tapa na cabeça.
- Assim você nunca mais esquece.
- Mas esquecer do quê?

(*SHTOC*)

- Nem que ela seja uma piranha de sarjeta, nunca maltrate uma mulher. Se você maltrata uma puta, o que você pode fazer contra a garota dos seus sonhos?
- Tá bom, tá bom. Mas na boa, isso mais parece coisa de quem se apaixona. Você tá apaixonado por ela?
- Não.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Então por quê....
- Porque ela é bonita, interessante, e me faz um preço até que bacana.

Chegamos na porta da boate do Aoki. No estacionamento, um Audi TT, um Mercedes esportivo e um Golf importado. Simplesmente um dos importados. Como quando eu acertei um daqueles com um paralelepípedo no pára-brisas quando eu saí do Aoki na última vez. Por isso estava indo acertar os lances com o japonês, antes que eu tivesse minhas pernas quebradas por "acidente".

- E aí, Cosme, belezinha?

(Cosme era um pequeno leão-de-chácara de um metro e noventa. A tez da cor do piche. Olhos amarelos e com um pequeno volume na cintura do lado direito.)

- Ou ele é o Ferrugem ou não tem jogo.
- Caramba, Cosme, quebra essa pra mim. O cara faz dezesseis hoje, num vai dar B.O....
- Olha, Jucão. Se ele entra, ele tem que consumir. Se os hómi baixá aqui, eu vou tá fudido, o Aoki vai tá mais fudido e você ainda mais, homem de Deus.
- Olha, vamos combinar o seguinte. Você recebe cemzinho, vai tomar um chops ali na esquina enquanto eu resolvo os meus problemas com o japonês. Simprão de tudo.
- Tsc. Vai logo. Mas se der treta eu te quebro e o anão também.

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