quarta-feira, 1 de dezembro de 2004

Não é "Lobo Solitário" mas tem o velhote e o pirralho. "Salary Man".

Episódio de hoje: "Música para Acampamentos"

Então naquela noite começamos a viagem. Gosto de viajar durante a noite - a sensação de que a estrada é unicamente minha, a ausência do sol que não parece mas queima durante essa época do ano, tem quantitativamente menos barbeiros (mas sempre tem um caminhoneiro rebitado que vale por dez domingueiros) e até mesmo os programas de rádio, quando os ouço, são melhores que durante o dia. Tem menos música pop, e mais coisa velha e diferente que Britney Spears.
Mas antes eu passei na casa do meu amigo e entreguei as chaves do sítio para ele - melhor assim, afinal de contas não queria começar uma orgia com animais da fazenda sem chamá-lo como pretendia fazer apenas de sacanagem (não que eu fosse colocar a minha carne dentro de um frango, mas apenas queria aprontar um trote com meu calouro de faculdade. Como quando colocamos nosso "amigo alegre" pelado no quarto com ele enquanto ele estava bêbado).

Passei na casa do Alan depois da janta. Umas últimas recomendações do meu tio:

- Olha Juca, eu sei que tu curte uns cigarrinhos do capeta, isso a gente sente pelo cheiro, sabecomé...
- Tio, eu parei com isso na faculdade.
- Mas eu sei que você tem aquela namorada hippie e tal, você contou para seu pai no churrasco....
- Sim sim, mas eu não estou mais nessa. Nem na maconha nem na hippie. Minha vida tá medíocre demais para que eu a mascare com drogas. Pelo menos foi o que a minha terapeuta quis dizer.
- De qualquer maneira, só evita que ele afunde no pó. Sabe o que aconteceu com seu tio Joaquim, né não?
- Claro, eu sei sim.

Joaquim era o irmão mais velho de Itamar. Sempre fora um revoltado. Cumprira detenção durante seis anos no Rio de Janeiro por assaltar um supermercado. Voltou da cadeia viciado em cocaína injetável. Morreu aidético em uma overdose na própria casa aos vinte e nove anos.

- Mas deixa o moleque viver um pouco, ok?
- Ainda estou me perguntando por quê diabos eu aceitei isso.
- Porque você fez faculdade.

Estávamos na saída da cidade quando comecei a puxar papo com o moleque.

- E então.... tá em que série?
- Primeiro colegial.
- Nem parece.
- Parece o quê então?
- Curso técnico.
- Isso mesmo. Primeiro ano do Curso Técnico em Eletrônica.
- Quer ser um salary man?
- Um o quê?
- Meu velho vivia falando dos Salary Men. Os caras que viviam para ganhar dinheiro ficar rico enfim, os malditos japoneses viciados em trabalho.
- Por isso eles possuem carros melhores e videogames melhores.
- ............

- Alan, faz um favor pra mim e coloca um CD no som do carro. A disqueteira está no porta-luvas.
- Que quer que eu coloque?
- Aquilo que te agradar mais.
- Deixover.... Chico Buarque....... Lauryn Hill.....Velvet Underground..... The Germs, o que é isso?
- A banda que revelou o guitarra-base do Nirvana.
- Que bosta. Jefferson Airplane...Queen, argh....... Weezer. O que é Weezer, "tio"?
- Em primeiro lugar, não me chame de "tio". Me chama só de Juca. Em segundo lugar, e eu temo em dizer isso logo de saída, mas teu gosto musical precisa de um Telecurso, meu chapa. O que você curte de música, Alan?
- Manowar.
- Tem o CD aí?

Ele colocou aquilo no meu carro. Por um momento eu achei que estava assistindo uma opera-rock com bárbaros saídos do filme do Conan balançando a cabeça e calças-fusô e cabelo laqueado.

- PÓ pará!

E tirei aquilo do meu som.

- Caralho, Juca!
- Rapaiz, isso é só um enforcamento de gato!
- Isso é metal!
- Isso é Mela-Cueca! Metal é o que tem no fim da disqueteira. Você vai encontrar Deep Purple.
- Deep Purple? Isso sim é coisa mela-cueca!
- Se você não sabe, eles são os verdadeiros pais do heavy metal. Eles criaram as bases de som que outras bandas acabaram transformando em "Massacration" da vida.
- Massacration?

Pensei comigo: "isso vai ser mais difícil que eu imaginei."


Continua no Póximo Episódio

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