sexta-feira, 3 de dezembro de 2004

Ninguém Segura Essa Porra de Blog! "Salary Man" pra vocês!

Onze da noite. Olhei o marcador do combustível e comecei a sentir que ele iria me trair mais cedo ou mais tarde. Desde que saímos de Mairinque ele não saía da marca de 1/4". Vi um posto dando boi na minha frente e entrei. Resolvi cutucar meu companheiro de viagem que tinha tirado um cochilo no banco do carona.

- Alan, tá afim de mijar ou algo do gênero?
- Só tô com fome.
- Toma vinte pila e compra algo no restaurante pra eu e você.

Desci do carro e comecei a colocar o árcool no tanque. Isso costuma meio que ser barato nessa parte do Estado - e nem precisam batizar a coisa. O mecânico agradecia em Sampa. Tanque cheio, dinheiro a menos, tudo nos conformes. Menos o porra do moleque que não aparecia. Então como uma maldita Mary Poppins eu comecei a procurar pelo garoto.
E não é que o encontro de papos com uma figura sombria numa parede... Chamei o moleque na chincha e da sombra sai um ser de quase um metro e noventa usando vestido e cabelos compridos.

- Aonde você tá levando ele?
- Ele tá indo pra casa da avó dele.
- Mas deixa ele aqui mais um pouquinho, vai....
- Te enxerga, "Moacir"!

Acho que isso o(a) deixou muito(a) irritado(a). Ele(a) veio pra cima de mim com um estilete, ataque clássico Tsuki. Pelas costas. Naquele momento apenas fiz-lhe a gentileza à la Steven Seagal, torcendo seu pulso com canivete e tudo. E saí dali deixando-o(a) com a pequena dor de ter o pulso quebrado, agradecendo a Deus por ter tido aquelas aulas de artes marciais no colegial e pedindo desculpas por ter feito aquilo.

- Alan, em primeiro lugar, onde está o dinheiro?
- Eu gastei.
- NAQUILO?
- Não, nas coisas que você pediu. Estão aqui na mochila. Apenas estava de papo com a Carlinha.
- Puta que pariu, tu é vacilão mesmo, hein....
- Mas por quê?
- Onde você acha que está para conversar nove-horas com um travesti de posto de gasolina?
- Ela era um travesti?
- E você achou que era o quê? Sua fada-madrinha?
- Puta que pariu....

Quis citar David Carradine naquele momento, mas achei melhor não. Era demais para o ego e a mente destroçados do coitado do Alan.

+++

Passava de três da manhã quando tive a minha primeira "rebarba" em muito tempo. Eu costumo chamar de "rebarba" pequenos flashbacks que se misturam com sono que ainda insisto em ter. Num deles quase entrei embaixo de uma Scania que carregava vidro na Dutra. Comecei a ver a estrada como um grande túnel, e as faixas de sinalização começavam a pegar fogo. Esse era o sinal: eu tinha que parar antes que eu e o rechonchudo virássemos impressão em um guard-rail de sorte.

- Alan, temos que parar.
- Tudo bem.
- Vai ser num motel mesmo.
- NEM FUDENDO, CHAPA!
- Calma, em quartos separados.
- Ah tá.
- Que foi? Tem medo de dividir quarto com homem, eh?
- Apenas a idéia não me agrada.
- Um nerd homofóbico, era só o que eu precisava.
- Nada contra, desde que fiquem longe.
- Hahahahahahahahahaha.........
- Qual é a graça, eu tô cagado?
- Ah, apenas imaginei que você, se frequentar uma noite de verdade em Sampa, vai ter muitos problemas ao continuar com tanto medo de pessoas "diferentes".
- Então tu curte homem, Juca?!
- Orra meu, eu gosto é de mulher! Apenas tem uma pequena diferença: eu me garanto nesse esquema. Você se garante, Alan?
- ....

Naquele momento eu achei que se aquele garoto não prestasse atenção aos detalhes, poderia largar o Curso Técnico em Eletrônica e se tornar um "videomaker multimidiático libertário" sem os devidos cuidados. Acho que foi isso que o Raul quis dizer ao me confiar a "tutela" do garoto.

Cinco minutos depois, vi a entrada de um motel iluminado como uma pista de pouso para aviões. "Motel Cáucaso". O saguão da coisa - se pode chamar aquela tapera de motel e aquela saleta de saguão - estava com luzes apagados, exceto por uma pequena meia-luz num cômodo atrás do balcão. No lugar da sineta comum a todos os lugares, um theremin. Aquele som bizarro de filmes de ficção científca do começo do século trouxe uma morena de olhos esbugalhados e cara amassada de dentro daquele cômodo.

- Pois não, rapazes.
- Dois quartos, por favor.
- Como disse?
- Dois quartos. Achou que eu iria dormir no mesmo quarto com esse cara aí?
- Meu bem, aparece cada coisa aqui que renderia até um livro ou um filme de putaria. Por exemplo, semana passada apareceram dois caras, uma moça, um travesti e um poodle que-
- Tá, tá, tá, tá. Tá certo. Só me dá as chaves dos quartos e ligue nos dois às oito.
- ÀS DEZ - disse Alan.
- Vai ser às oito ou dez? Tenho que marcar aqui pra moça do próximo turno.
- Coloca às nove e meia.
- Tá limpo.

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