terça-feira, 2 de novembro de 2004

Vale a Pena Ler de Novo: "Dois Céus"

"Dois Céus" foi o primeiro conto que escrevi na vida - e levou mais ou menos dois anos para que eu o terminasse. Na verdade ele apenas foi acabar há algumas semanas. Enquanto o meu "Kill Bill" não aparece na minha mente (apesar da história do padrinho irresponsável que 'mata' o sobrinho-afilhado no seu aniversário de quinze anos ser um bom argumento, mas ainda não está formulado por falta de tempo enquanto tento me formar jornalista), eu vou deixar esse pequeno conto pra vocês. Poderia ser eu, poderia ser meu pai, poderia ser meu irmão... ou não.


Um Recomeço no Coração do Mundo

Cada passo é uma trovoada, a cabeça sente o peso do mundo. “Nunca mais bebo Martini no começo da balada, isso é pra eu aprender”.
Ivan Katsuyama, um nissei de 39 anos, sobe as escadas do sombrio prédio no qual morava em Belo Horizonte, às margens da Lagoa. Achava que se recuperasse o espírito jovem que tivera nos tempos de faculdade, talvez pudesse renascer como a lendária ave. Entretanto, tudo o que conseguira foi arranjar uma dor de cabeça no dia seguinte por conta da ressaca e um pé torcido.
O apartamento simples do fim do corredor do terceiro andar estava como a vida de Ivan: completamente fora de ordem. A arrumadeira apenas viria na quarta-feira, e era um fim de sábado com gosto de cascalho. Aquele inverno estava sendo um pouco mais seco do que de costume, mesmo às margens da Pampulha. Revistas velhas sobre a mesa de centro. Sobre o sofá, roupas sujas e uma toalha molhada, um costume antigo. O computador que fora esquecido ligado ainda tinha aquelas malditas torradeiras voadoras do Afterdark. Ivan apenas apanhou um balde na área de serviço e tentou desabar na cama.
No quarto, a última herança do segundo casamento fracassado: a cama de casal, com arcos tubulados cor de vinho. Iria fazer três anos de divórcio dali a três dias, e ele não guardava nenhum remorso daqueles dois anos e meio no centro de São Paulo.
‘Tanto tempo para nada...’
Mas Iara era a segunda decepção. Ivan já vinha de três casamentos: sua primeira esposa, Mariko, morrera no Japão onde se conheceram há quinze anos. Quando se passaram cinco anos de sua morte, ele decidiu continuar. Mas apenas conheceu a dor e a separação desde então, tanto no Rio de Janeiro como em São Paulo. Desde o rompimento final com Iara Rodrigues, Ivan decidiu recomeçar do zero e se mudou quase nu para a sucursal do Jornal do Brasil em Belo Horizonte. Dias de sossego para a alma, ele pensava.
Ivan colocou o despertador ao lado da cama e deixou que a bebida desse o golpe de misericórdia. Antes de se desligar por completo, ele relembrara seus dias na USP. A ECA jamais fora a mesma, que saudades daqueles tempos, daqueles porres...

O sol já ardia velho lá fora quando Ivan foi acordado por seu chefe o editor Alberto Soares, extremamente furioso:
- Ivan!
- Alberto?
- Já são dez e meia, que tal? Vai aparecer ou vamos ter que implorar pra você fazer o seu trabalho?
- Calma, calma, em uma hora eu já apareço...
- O caralho que você aparece em uma hora, em meia hora é pra estar aqui, senão pode ir tirando suas coisas da sua mesa!

‘Puta que pariu, maldito velho bigodudo.....’
Depois de um banho frio e uma barba feita com uma lâmina tão embotada que se podia sentir cada pêlo da cara sendo raspado dolorosamente, rapidamente ligou para Odacir Marques, colega de redação, para lhe por a par de todos os detalhes da pauta e o resto. De fato, Odacir devia favores a Ivan desde que o mesmo Odacir quase foi processado por uma garota de programa por agressão qualificada, depois de uma noite de bebidas no Carnaval. Ivan intercedeu por Odacir e deu um cala-boca de quatrocentos dólares à prostituta de luxo. Ambos eram baladeiros fora de seu tempo, achavam que a vida era aquele segundo e nada mais. Eram normais como quaisquer outros do gênero humano.
Ele desceu as escadas com passos tímidos, prêmios da ressaca. Um Bausch & Lomb todo riscado e torto cobria-lhe as olheiras, óculos esses que eram uma marca registrada e remontavam aos tempos de Elza Silveira e Rio de Janeiro. O terno cinza claro mal o cobria, mas era algo que pelo menos lhe dava uma aparência mais social que sandálias e camiseta regata. ‘Tenho que tomar vergonha na cara e tirar uns trocados num dia desses e comprar pra mim algo mais decente’, pensou Katsuyama enquanto cruzava o térreo.


Continua no próximo episódio.

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