quinta-feira, 18 de novembro de 2004

Um continho à parte pra vocês. Do fundo da minha bile.



Salary Man


Eu lembro de coisas enquanto tento dormir. Lembro dela contando da primeira vez que tomou ácido lisérgico, de como as placas da rodovia dançavam para ela ao som de Echo and The Bunnymen. Da vez que ela transou no banheiro do Jockey Club no Tim Festival, por apenas farra depois que terminou comigo. "Ah, queria dar um sustinho no meu 'môzinho', por isso chamei ele pro canto e disse: 'estou sem calcinha'. Ele ficou sem reação por dois segundos." Tem horas que a gente pede para que aquele avião de Mach 10 passe a dois metros acima de nossa cabeça, assim nossos tímpanos seriam levados para uma galáxia muito, muito distante daqui.
Penso em desatinos e em queimar uma casa de praia sozinho. Desde quando eu me masturbei no ônibus a caminho do litoral lendo um conto da Adelaide Carraro eu tive esses "momentos trash", como quando eu quase comi um travesti atrás de um muro no centro velho da cidade de São Paulo, perto da Cracolândia. Quase. Resolvi ficar em casa naquela noite e assistir o programa da Luciana Gimenez.
Foi por isso que ela me deixou - porque eu era um bunda-mole que gostava do programa do Luciano Huck e parava pra ver a Sessão do Descarrego na Rede Mulher. Ela me disse que eu me parecia com o Bruno de Luca e eu disse que o boquete que ela fazia nem era digno de uma puta, além dela ser uma maldita hippie comedora de cogumelos.
Uma vez eu experimentei um ponto inteiro de ácido junto com ela. Vi que a nossa síndica estava usando o maiô da Hera Venenosa, e que ela começava a se engalfinhar com o extintor de incêndio do corredor do nosso apartamento. Mas isso foi durante as comemorações do Ano Novo, ninguém se importou com a bagunça e com o Jefferson Airplane no último volume. Valeu também pelos dois flashbacks que eu tive - um durante uma trepada na sacada do prédio, outro enquanto eu estava no trabalho. Foi divertido ver meu chefe como se fosse um daqueles postes de barbeiro de desenho do Pica-Pau.
Mas ainda sim eu creio e rezo que nada mais sou que um "fraco". Não tenho vocação pra "Burnham", pra chutar o pau da barraca de uma vez por todas. Eu fiz a minha faculdade sem sair da casa dos meus pais, consegui direto esse emprego no escritório de contabilidade de uma empresa terceirizada, uma casa aos vinte e oito anos, minhas prostitutas de vinte e cinco reais de vez em quando, uma maconha muito da chocha com meu amigo da academia, um pacote da Sky e minhas neuras de pessoa normal.
Quando tinha quinze anos queria mudar o mundo. Aos dezoito, rezava pra ser atropelado. Aos vinte e um, queria apenas queimar um índio guarani em algum lugar da periferia de Sampa. Hoje, aos trinta, tenho dois carnês das Casas Bahia e um da loja de home-theater que comprei pra ver filmes da Sylvia Saint.
Queria um daqueles cogumelos de novo.

Sem comentários: