domingo, 7 de novembro de 2004

Pra não perder o ritmo - Parte 3 de "Dois Céus"

Enquanto caminhava, decidiu parar numa padaria, onde comprou um maço de cigarros contrabandeados. O relógio dos cigarros Hollywood marcava onze e cinqüenta e quatro. Enquanto acendia um cigarro e pedia um risole de carne, uma moça de cabelos curtos se aproximou bem devagar e perguntou:
- Com ricensa, o senhor é Katsuyama Ivan?
- Sim, sou Ivan Katsuyama...

‘Quem é essa aí? Mas pelo sotaque e pela forma de falar o nome, deve me conhecer de Shitamachi, mas quem é?’

... mas desculpe, não consigo te reconhecer. Pode me dizer que você é?
- tem certeza que non se rembra de mim???
O cabelo da moça era curto, estilo Chanel, mas ao afastar as franjas da frente do rosto, a feição dos olhos não deixava mentir.
- Aika!

Aika Kurohara era cerca de cinco anos a irmã mais nova de Mariko, mas continuava mantendo a semelhança dos velhos tempos. Segundo ela, ela foi transferida de uma empresa de contabilidade do Japão para a nova filial em Belo Horizonte, os chefões da matriz em Tóquio viam um grande potencial na região para os próximos anos e escalaram sua mais promissora gerente para fincar as bases da nova empresa. A relação entre Aika e Ivan era no passado de uma cumplicidade intrigante, a ponto de ambos ficarem horas conversando por conversar, jogando conversa fora, enquanto Mariko estava fora da cidade. Ambas possuíam um olhar particularmente instigante, e a idade apenas fez com que tal magnetismo fosse reforçado.
Ivan e Aika ficaram conversando durante aquelas quatro quadras e meia tentando um saber a respeito do outro, após tanto tempo. Às portas da redação, Ivan entregou um cartão com o telefone do seu apartamento, para que pudessem conversar mais em paz, já que o dever o chamava naquele fim de semana. Teria o domingo livre, e poderia sair com ela para tomar um chope amistosamente.

Odacir Marques era da cidade, vivera sempre no lado mais sombrio da classe média de Belo Horizonte e sempre desejara mudar - se não fosse possível – ou expor toda a podridão, hipocrisia da sociedade. Por isso, era um desafeto de muitas personalidades locais e fora gradativamente posto à parte da coluna social para escrever sobre política. Conseguira isso como única alternativa ao desemprego completo, e mesmo assim entregava sempre pautas alternativas – "não nasci pra trabalhar no 'O Globo', sou bom demais pro que é óbvio" segundo sua própria descrição.
Enquanto ambos tomavam um café amargo para espantar o sono e a ressaca, discutiam sobre o começo do fim de semana, enquanto Ivan desabafava:
- Mineiro, esse mundo é um cu mesmo...
- Por quê diz isso, Japa?
- Nem te conto quem eu encontrei...
- Quem encontrou, foi Jesus?!
- Nem é, minha ex-cunhada que não encontrava desde 1975 no Japão.
- E aí, vai comer, seu japonês sem vergonha?
- Puta que pariu, Oda ?! Há quanto tempo você não come alguém sem que tenha que dar uns tabefes?
- Porra Japa, vai sacanear mesmo?
- Não fode o coreto comigo, ok?
- Ta certo, mas como ela se chama?
- Aika Kurohara...
- Parece marca de rádio... Brincadeira, brincadeira. Mas falando sério, você quer algo sério com essa Aika?
- Não sei, não sei mesmo. Eu a conheci quando ela tinha quinze anos, e é como a minha primeira ex iria ficar se estivesse viva... Saudades dela...
- Mas vai comer ou não?
- Mineiro, faz quanto tempo que você não fuma uma tora ou come alguém só pra acalmar essa sua neura, hein? Me deixa trabalhar agora que tá foda o velho...

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