quarta-feira, 10 de novembro de 2004

Mais uma parte das aventuras de nosso japonês bundão!

Parte 4 de "Dois Céus"

Mais à noite, Aika e Ivan se encontraram num bar às margens da Lagoa – do lado oposto ao apartamento dele – para tomar uns tragos e colocar a conversa em dia. O lugar era aconchegante, misturava uma atmosfera irlandesa com o clima dos trópicos, a cerveja era boa e, naquele 1989, era barata. Numa mesa junto à parede, Ivan esperava Aika. Com cinco minutos de atraso, ela apareceu, pedindo desculpas. Com um copo de scotch, Ivan brindou com a cerveja de Aika (em japonês):
- A bons tempos em Yokohama... saúde.
- Saúde. E por onde você correu desde aquela noite?
- Vinte mil quilômetros, duas cidades, mais duas dores de cabeça. Então, quis paz para a mente.
- Mas por quê não foi para casa?
- Talvez eu sofresse mais lá do que aqui. Aqui eu posso fazer a minha história, coisa que com certeza não conseguiria no Nihon. A praia, as ruas os bares e até mesmo o céu de lá me trazem lembranças. Ahhhh, estou falando demais a meu respeito. E você, “Ai-chan”, o que aconteceu com aquela colegial que deixei há quinze anos? Casada, solteira....
- Nunca me casei, não havia homens de qualidade em Kanto.
- O quê?? Espera aí, vou pedir que o garçom não te traga mais cerveja, ok? Já começou a delirar, pobrezinha... Mas queria saber o motivo de tanto preconceito para com seus patrícios...
- Os bons costumam vir de fora.......
- Aika, assim você acaba me deixando constrangido. Não diga coisas que não possa arcar, nem me faça dizer coisas que eu não possa arcar também...
- Qual é o seu medo afinal?
- Minha vida está em fase de reconstrução: estou num apartamento menor que esse pub, num lugar que ainda não tomei por lar. A pessoa que amei e que me amava morreu, e acabei morrendo um pouco com ela. Quando tentei me levantar, tomei dois golpes do destino. Se eu te disser Sim, talvez eu te machuque mais se eu te disser Não.
- Mantém essa pose, de quem carrega o mundo, mas pra quê? Mantém o estigma da dor sem qualquer motivo, pois ainda não saíste do luto.
- Quer que eu esqueça tudo, você e sua irmã?
- Ivan-san, pare de olhar para tras!

Naquele instante Ivan parou por um instante e se lembrou da noite que se seguiu após o funeral de Mariko, quando Aika e ele estiveram conjeturando à beira do mar.

- Sua irmã era uma pessoa incrível, e acabou se tornando pra mim algo mais que a própria vida.
- Por favor, Ivan-san, não fique tão triste...
- Não sente saudades de sua irmã?
- Claro que sim! Mariko-chan era a minha irmã e eu gostava muito dela, de verdade. Mas ver você tão desgostoso com a vida enquanto está aqui, respirando...
- ???
- .... deixa pra lá.

- Faz quanto tempo que está me procurando?
- Cerca de dois meses. De São Paulo até o Rio, depois de novo em São Paulo e agora umas três semanas aqui. Até parece que não quer ser encontrado...
- Quase isso. Já quis ter um tempo apenas para você poder se situar? Sem ter que suportar peso de família, amigos todo mundo querendo dar palpite no que você faz?
- E o que descobriu nessa sua peregrinação?
- Que eu perdi muito tempo.
- Eu não... Eu acabei te encontrando.......


Continua no próximo episódio....

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