sexta-feira, 12 de novembro de 2004

Mais um episódio do romance-tentação para toda a família: "Dois Céus"

Eram duas da manhã. Ivan subia lentamente – sóbrio, mas cansado – as escadarias de seu prédio. Sua mente não conseguia trabalhar direito no que quer que tentasse pensar. Sentou-se no sofá e abriu um maço de cigarros. Arrematou o que restava de uma garrafa de Logan que jazia sobre a mesa de centro, e a iluminação fraca por conta da luz do poste apenas induzia-o ao sono. “Pelo menos vou dormir na minha cama dessa vez.”
Jogou suas roupas num canto do quarto e ajustou seu despertador para cinco e meia da manhã. Seu último pensamento acordado foi:
“Parabéns. Acabou de comer a sua cunhadinha.”
O despertador trouxe-o de volta à realidade – a noite anterior se estendera tempo demais e agora era voltar à via comum de assalariado dos serviços de Comunicação para ele e Odacir, “os dois jornalistas mais incompetentes de Belo Horizonte”. Ivan chegou à redação no exato momento da reunião de pauta com seus indefectíveis Bausch & Lomb, ao lado de Oda. Deus deveria estar do lado de Ivan naquele dia, já que seu plantão “voluntário” iria lhe render o fim de semana seguinte “intocável” e naquela segunda ele ficou encarregado de apenas corrigir as matérias que iriam ser impressas – naqueles dias o trabalho na redação era um cabide de emprego de primeira qualidade.
Não que Ivan não gostasse de ficar apenas na redação com o focinho no monitor e as mãos no teclado, mas naquela segunda-feira havia ocorrido um engavetamento de carros na BR-262, e sempre pode se tirar um ou dois fatos que nunca é conveniente serem mostrados. Entretanto, duas horas de sono e uma noitada com Aika reduziram seu intelecto à configuração mínima. “Desde que me mudei pra essa cidadezinha é a primeira vez que eu fico moído desse jeito.”
O dia de Ivan na redação se resumiu a acompanhar pela TV o trabalho de resgate dos feridos e o trabalho da Polícia Rodoviária em reorganizar o caos que tinha se instaurado na rodovia. Às três da tarde começaram a chegar os textos da equipe que foi até o local. Não que ele não gostasse de ficar apenas na redação, mas não fora talhado para serviços burocráticos. Volta e meia se perdia em pensamentos tortos.
“Agora sei porque saio pra rua, pra evitar esse marasmo. Mas hoje até que mereço. Puta merda... Não que eu não goste, mas por quê acabei comendo a Aika, era muito melhor quando ela era apenas a garotinha, não essa mulher gostosa... Aqueles olhos, parecem os da Mariko... mas isso já era passado...”
....e acabou se tornando pra mim algo mais que a própria vida......
“O que há de errado que não consigo esquecer? Passei cinco anos de costas para o mundo, foi tempo demais! Quando finalmente....”
- - - Meu Erro Insano - - -
- Ô Japa! Acorda!
- Ahn?
- Que porra é essa, “Meu Erro Insano”, é sua crônica de domingo?
- Desencana, Oda... E aí, cadê as fotos? E as anotações do Cláudio?
- Ele tá dando um jeito agora mesmo na mesa dele, antes de mandar pro editor. As fotos estão sendo reveladas agora mesmo, vai demorar um pouco. Mas que porra foi essa que eu fiquei te chamando por dois minutos e você parecia estar chapado, cacete?
- Caralho, mineiro, não enche. Num tô com a cabeça pra trampo hoje.
- Por acaso é por causa dessa marquinha roxa no seu pescoço? E isso porque você não iria comê-la...
- Cala a boca, Odacir, quer que o mundo inteiro saiba?
- Pra quê esconder? Tá de olho em mais alguém nessa redação? Quem não te conhece que te compre Ivan Katsuyama, metelão amador...
- Velho, depois a gente conversa. Lá na padoca, depois do expediente...
- Onde?
- Padoca, mineiro, padaria...
- Puta que pariu, paulista é tudo cretino mesmo....
- .........


Continua daqui a sete dias.

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