sexta-feira, 19 de novembro de 2004

Continuando a historinha.... "Dois Céus"

- Katsuyama!!!!
- Fala, Alberto....
- Onde é que está o texto do engavetamento na 262?
- Finalizando, mais quinze minutos e tô mandando pra diagramação, sem problema.
- Hoje fecha às sete e meia, e se continuar com esse corpo mole você vai pra rua com ressaca ou sem ressaca!
- Eu gosto de você por causa dessa sua doçura, Alberto... Digo, SENHOR Alberto....
- Fica marcando comigo e te ponho na rua, você e aquele maconheiro do Marques.
- Siiiiimmm, senhoooor....

Alberto Vieira Soares era o editor mais intransigente e “cretino filho da puta” – segundo o pessoal da redação – já visto no comando inferior de um jornal. Sua palavra era mais forte que lei dentro dos corredores do jornal, era quase um mandamento divino. Com uma peruca mal arranjada sobre sua fronte e um portentoso bigode grisalho, habitava os piores pesadelos dos estagiários da sucursal do Jornal do Brasil em Belo Horizonte.
Jamais ninguém soube como ele se tornou um ser tão amargo e ao mesmo tempo tão digno de pena. Dizem as lendas que ele, antes um forte ativista da esquerda no Estado durante os anos 60 e apoiador do regime de Jango, com a queda do governo em 1964 acabou sendo levado aos porões do DOPS como vingança dos militares. Voltou como um carneiro para o regime e com um tremendo ódio por focas. Outra lenda inerente reza que foi um novato que o entregou à P.E. Ele odiava Ivan por seu passado como ativista juvenil em São Paulo. Isso estava fixado em sua ficha policial como uma marca de fogo dos revolucionários de farda.
Após o expediente, Ivan e Odacir se juntaram a Cláudio Borges na padaria em frente ao jornal. Cláudio era o mais certinho dos três, casara-se cedo com Giovana e mantinham uma relação sólida. “Pareço mais um daqueles cartazes da ditadura da época do tri”, afirmava.
- Então me conta Japa: quem partiu pra cima primeiro? Foi em cima ou foi embaixo?
- Quer meu RG também, seu guarda? A gente só conversou, relembrou os velhos tempos do Japão, e atualizando nossas visões da vida, só isso.
- Não sabia que tinham mudado o nome da trepada pra tudo isso – comentou Cláudio.
- Num fode, bando de pinguço....
- Ai, audácia da filombeta!!! – ironizou Odacir – Mas, falando sério, o que é que você sente por essa Aika... Kurohara?
- Ela é tipo a minha irmã mais velha, a que eu nunca tive. Nos anos em que eu passei lá em Yokohama, era com ela e a Mariko que eu me distraía. Contava causos meus daqui, ela me contava histórias engraçadas com ela e a Mariko, era a minha contraparte.
- Cascata... – cantaram os dois em coro.
- Se você fosse tão inocente assim, como você diz, você não ficaria tão moído hoje na redação, nem chegaria perto da cama onde vocês transaram, seja onde for.. E não sou apenas eu que acho isso, muita gente no trabalho acha isso.
- Tô me lixando pra aqueles idiotas do Jornal... E aí Mineiro, como anda o teu Cruzeiro?
E lá ficaram conversando sobre futebol, mulheres do momento, televisão animal e coisas que intelectuais pseudoboêmios tentavam levantar movidos a cerveja.

Era noite de sexta-feira quando Ivan veio para o seu apartamento, sem expectativas de baladas. Depois daquela noite cáustica, desistira de retomar os esforços de ser um velho jovem. “Essa história de Jovem Ainda do Chaves nem cola....” Seu apartamento não estava tão lúgubre quanto antes, não havia espaço para discursos depressivos.
Sua mente estava voltada para os desdobramentos da última semana, de onde saíra do inferno para chegar ao chão propriamente dito. Já não sabia onde pisava, se seu coração estava batendo dentro de si ou se estava enterrado em São Paulo, após aquele dia. Iara, Elza, Mariko, Aika.. ele acabou por repartir demais a si mesmo, aquilo que não deveria ser repartido. Em detrimento de si mesmo, preferiu que elas continuassem seguindo em frente. Talvez esse fora “seu” erro insano, já que o de Iara fora se casar com ele. Nem ele, nem elas nem ninguém merecia passar por qualquer martírio emocional.
“é hora de me desprender da minha vida.”
Ivan apanhou o telefone e o seu caderninho de números no criado-mudo. O número de Iara ainda estava lá, apesar da linha cortando-o de alto a baixo. “A vida é curta demais pra isso.”
- Iara?
- Sim, quem é?
- Não me reconhece mais, anjinha?
- Nossa, Ivan, quanto tempo, hein....
- Pois é... Não sei o porquê ainda, mas liguei pra saber como você está, se está casada, solteira....
- Eu me caso daqui a seis meses, Ivan. Mas o que você tem com isso?
- Nada, apenas liguei para...
- Você me larga depois de quase três anos de relacionamento, sem se explicar, sem dizer para onde ia, sem sequer me dar um beijo de despedida, e você vem agora ligar para ver se está tudo bem?
- Quer um motivo? Eu te dou um motivo: Você se cansou de mim, simplesmente isso. E eu não estou aqui para ficar como um porta-chapéus enfeitando a vida de ninguém. Se você não teve coragem de me dizer a verdade, eu a disse por você, simples assim!
- Ora, seu japonês idiota, você não passa de uma criança esnobe que só porque não soube lidar com uma coisa que todos os casais têm que lidar, jogou tudo pra cima como se fosse um jogo!
- Quer saber? Acho que é você nunca iria superar essa crise, se está tão ofendida com tudo isso, mas você foi esperta e vem jogando essas cobranças pra cima de mim. Por quê não me disse o que sentia, em vez de ficar se comunicando com o nada?
- Vai à merda, Ivan! Tchau!
“Mais uma vez, mais uma briga. Como se não fosse diferente quando estávamos juntos. As pessoas nunca se esquecem dos seus momentos mais tristes, mas sempre fazem questão de abandonar as lembranças mais doces. Como os conselhos que os pais dão aos filhos... Um conselho iria bem agora...Um conselho para mim? Assuma que você conduziu as coisas com elas do modo errado”.
Nesse momento, campainha, quase muda com o ócio – na verdade, era a primeira vez que era tocada – vem tomar Ivan nos seus pensamentos. Temeroso, ele abre a porta. Era Aika...
- Ivan-san, posso entrar?
- Claro, por quê não?
- Olha, quanto àquiro que aconteceu anteontem....
- Arrependida?
- Não... e você?
- De maneira alguma...
- Eu vim aqui pra farar... que... eu não quero dizer algo assim, ton de repente...
- Não precisa dizer nada, Ai-chan.

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