sexta-feira, 5 de novembro de 2004

Continuando com o Revival do "Muro do Minduim".... Parte dois de "Dois Céus"

Às portas do edifício, em seu primeiro passo em direção à realidade, ironicamente um passo com o pé esquerdo, o primeiro fato inusitado do dia aconteceu. Vinda de Deus sabe onde, uma alma esbarrou com força em Ivan, fazendo-o cair, e seus óculos acabando por se riscar ainda mais no calçamento de pedra-sabão. A pessoa desapareceu antes mesmo que pudesse ser identificada pela silhueta. Junto aos óculos escuros, um panfleto sobre uma mostra de arte no Centro Cultural naquela noite.
- Malditos artistas, hedonistas filhos da puta...
Nada tinha contra as belas artes em si, mas Ivan tinha algo pessoal contra os pseudointelectuais do ramo artístico e cultural. Sua segunda ex-mulher Elza Silveira deixou-o no Rio de Janeiro após três anos de casamento para viver com um escultor finlandês na Europa. Apenas deixou uma carta avisando que tinha ido embora, o motivo (o caso com o escultor) e que tinha uma lasanha no forno. Assinou os papéis do divórcio por intermédio de seu advogado, e nunca mais quis saber do Rio ou de Ivan. ‘Que aquela loira falsa e vadia se engasgue de porra e aquavitch daquele branquelo maldito’, pensou por impulso. Mais tarde digeriu e aceitou seu destino.
Certa vez em 1969, ele teve uma calorosa discussão com seu professor na USP, motivo pelo qual ficou conhecido dentro do curso como um aluno intransigente e reacionário. O assunto: pontos de vista da cultura de protesto. Ao saber dessa fama, Ivan trancou sua matrícula, esperando dias melhores dentro da faculdade e no Brasil, de certa maneira. Se continuasse, com certeza iria por uma estrada sem volta.
Ao saber da decisão de seu filho, Kazuo Katsuyama mandou-o para Tóquio trabalhar em uma fábrica de televisores para aprender o valor do conhecimento. Morava com seu tio Masaki em Yokohama e sempre acordava cedo para trabalhar na fábrica no distrito de Shitamachi. Numa de suas folgas, enquanto passeava pelo bairro, descobriu que havia uma moça que sempre olhava para ele quando Ivan chegava do trabalho. Ela era sua vizinha, Mariko Kurohara.
Mariko estava fazendo Jornalismo e História da Arte na Toudai, e era apreciadora de arte moderna. A Bauhaus era moda naqueles dias de 1970, e ele não podia negar o impacto que aquilo causava. Conheceram-se, se tornaram íntimos conforme o tempo passava e se casaram em 1974. Quatro meses após se casarem, ela teve como trabalho cobrir uma exposição de arte em Seoul, pelo Asahi Shinbum. Tomou um avião fretado, que acabou caindo no Mar do Japão, matando ela e mais três passageiros. Ivan a amava. Não culpou o jornal, não culpou a empresa de táxi aéreo (apesar dos inúmeros pedidos de perdão e das indenizações), mas num surto de paranóia acabou culpando a Arte.
Quanto a sua última desventura amorosa, Iara Rodrigues, tratou-se de uma questão estúpida. Iara era publicitária e tudo ia bem com o casal, mas um dia ele encontrou um caderno de poemas, o qual ele não resistiu em abrir e checar. Havia um poema em que ela metaforizava a agonia que sentia na relação e que quase confessava que havia errado em se casar com Ivan. Após isso, ele simplesmente deixou-a, assim como Elza fez com ele, mas ele não tinha mais espaço naquela São Paulo e pediu transferência para outro lugar. Como não conseguiu, pediu contas e foi oferecer seus serviços à sucursal mineira do Jornal do Brasil.
Quando se deu conta, vinte anos haviam se passado. Cabelos brancos não eram coisas tão absurdas para ele, e a dor vinha como um diploma da decadência do arco da maturidade. As garotas já o chamavam de “senhor”, “tio” e outras coisas não tão dignas.
Enquanto dirigia pela cidade, Ivan tentava não sentir a dor no estômago causada pelas doses de Martini e Passport barato na Black Sun, boate na região oeste da cidade. Todos resolveram sair de casa naquele sábado, então teve que deixar o Fusca ano 1983 a cinco quarteirões da redação do jornal.



Continua, dona Iris. Continua.

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