sexta-feira, 15 de outubro de 2004

Final Final de "Código de Honra"

“Eu lembro que eu fiquei parado na calçada em frente ao meu prédio na Luz por mais ou menos uns vinte minutos. Cada fio de cabelo que eu ainda tinha em minha cabeça grande, cada pêlo em minha espinha, cada fibra do meu corpo gritava pra mim ‘Cê é loco? Sai daí sem olhar pra trás’. Não cheirava a uma armadilha a ligação do Caio. FEDIA a uma armadilha, o cheiro empesteava o ar e recendia como bosta seca. Sentia o gosto do medo bater nos meus dentes como quando eu mastigava um pedaço de papel-alumínio quando criança. Me senti um pirralho de sete anos, de novo.
Eu comecei a me lembrar de muitas coisas. Me lembrei da noite em que eu pensava se valia a pena goelar o Caio pro pessoal da Corregedoria, se eu mesmo tinha entrado no esquema. Mas antes de me entregar, eu tinha me livrado de todos os laços com o laranja que fazia a ponte com o Ming, o dono do puteiro nos Jardins. Eu fiquei naquela noite rodando pela cidade até ficar morto de cansaço, pra depois eu esticar duas carreiras e continuar dirigindo na alucinação. Um puta gosto de amargo e o cagaço de ser queimado no desengano, cair feito um patinho. É um risco que se corre quando se recorre ao Sistema no Brasil. Ainda mais em Sampa. Prometi a mim mesmo que se eu escapasse daquelas eu ia criar galinhas em algum sítio em um canto perdido de Minas. Foi então que eu despertei da paranóia e falei ‘que se foda’. Esperar salvação pra mim é pedir demais a meu orixá. Eu me decidi a levar o Caio pra merda e nisso eu fui bem sucedido.
Agora era a minha hora. Era a minha vez. Então, que se foda. Se era pra ser assim, que pelo menos fosse no meu local de trabalho, e não numa vala suja em Itapecerica da Serra. Sétimo andar, sala 709. ‘Ricardo S Assessoria Investigativa’.
E lá estava ela, sentadinha com uma bola de tênis na boca.”

Ricardo entrou na sala e viu Cíntia amarrada e amordaçada com uma bola de tênis na poltrona da sua escrivaninha. As janelas estavam estranhamente sem cortinas e abertas, num tempo chuvoso de final de fevereiro. Ao se aproximar da garota, Ricardo sentiu o cano da arma de Caio em sua nuca e ouviu o barulho do cão sendo puxado.

- Sabia que ela era uma tremenda vadia? Isso mesmo, ela e eu tivemos tardes inesquecíveis, desde o churrasco de fim de ano. Ela tinh dezenove e eu lá os meus vinte e oito. Fazia um boquete fenomenal, dava o cu como ninguém, melhor que aquelas vagabundinhas que tinha no club que você ajudou a fechar.
- É, eu fiquei sabendo. Falei com a Val tempos depois. E aí, Cíntia, ele também pedia pra você enfiar dois dedos no cu dele pra que ele ficasse com tesão? Você é um safadinho, seu Caio.

Naquele momento, Ricardo tomba no chão com a dor da coronhada que toma de Caio e fica aos pés da refém.

- Caio, Caio. Como me recebe dessa maneira? Depois de todas as nossas aventuras sexuais juntos, depois de você ser a minha menininha e a menininha daquele chinês sujo que te comprou com umas putinhas e meio quilo de farinha...
- Vamos parar com essa viadagem, Ricardo. Você também estava no esquema, seu hipócrita filho da puta!
- Sabe como se chama o ladrão que escapa da condenação? Doutor. Me chama de Doutor Ricardo, seu empreiteirozinho de merda. Eu fiz Direito no Largo do São Francisco, não se esqueça disso. Ah, me diz, já que você era o cão-de-guarda do Ming, ele te enrabava como? Eu soube que ele curtia uns lances de dominatrix... Ele enfiava aquelas bolinhas coreanas no seu rabo? Quantas cabem?
- Heheheheh... Eu te conheço, Ricardo Sampaio. Eu sei que você ta falando esse monte de merda pra tentar fazer com que eu fique puto e te mate de uma vez ou que eu me descontrole como uma menininha e você tenha a sua chance de ouro. Mas, acontece o seguinte...

BANG

… eu também não atiro pra imobilizar...

O tiro atingiu o pescoço de Cíntia, fazendo-a se retorcer de dor e desespero na poltrona de couro sintético verde. O sangue dela começou a espirrar sobre o rosto de Ricardo, e ele viu nos olhos dela um último suspiro de vida carregado de ódio. Ódio por ele.

- Onde estávamos? Ah, sim. A sua amiguinha aí era a maior vadia que eu já conheci em toda a vida. Coisa de “Geração $” mesmo. Ela quis que eu entrasse pra patota dela de amiguinhos desregrados, foram bons tempos. Foi aí que eu conheci o Ming numa das festinhas delas com os amiguinhos de Alphaville. Eu e ele tivemos uma idéia de vender um pouco de diversão pra aqueles mauricinhos. Então comecei, junto com uns amigos meus, a fazer um caixa dois de tudo aquilo que apreendíamos. E com o dinheiro dos nossos investidores eu e ele montamos nosso Empório. Sabecumé. A patroinha queria trocar de carro, a mensalidade da escola tinha aumentado, tinha que mandar a filha pra Disney e eu não cago dnheiro. Agora, eu vim aqui pra fazer um pouco de justiça à minha maneira. Você foi filho da puta comigo, eu fui com você agora, estourando a sua namoradinha. Mas de qualquer maneira você ia morrer de AIDS mesmo, fiquei sabendo do pai dela que ela tava contaminada e que tava na miúda pra morrer em paz.
- Eu não fui pra cama com ela, seu panaca. Além do mais, só mesmo com ela chapada pra trepar com um nerd como você.
- Chega desse joguinho, Ricardo. Vamos lá, desembucha. Eu sei que você tem uma pasta com todos os documentos que mostram que você, eu e o Ming estávamos na mesma jogada. Eu sei que você tem isso, afinal de contas você precisaria de uma moeda de troca pela sua vida. O problema é que você tem essa mania de tentar guardar um salvo-conduto pra passar pelo inferno são e salvo... Típico... Onde estão os papéis?
- Eu queimei, seu otário.
- Chega de blefes. Por quê será que a vadia agonizante ali estava vindo para cá? Estamos no fim da mão, Ricardo. Ou queima a sua manilha ou você perde. Me diz onde eles estão e eu chamo a ambulância, eu juro que chamo. Oras, ela ainda não morreu, ela tem... dez minutos. Mas se não chamar, eu atiro nela na cabeça, espalho os miolos dela em cima de você e depois te mato. E saio daqui feliz e pipocante.
- ......da.
- O quê? Tira o cacete da boca e fala, homem!
- Que se foda.
- Não. Que se foda você.

“Uma coisa que eu aprendi quando estava no curso da Polícia Civil é saber quando é que uma pistola pode travar. E eu sabia que quando a arma engasga, faz um barulho diferente quando ela volta à posição inicial, um barulho mastigado. Foi isso que me deu uma vantagem de mais ou menos sete segundos.”

- Filhadaputa de pist-

“Ele cometeu um erro. Ficou de costas pra janela. Foi como atirar um saco de merda janela afora.
Mas depois foi aquele soco vindo do nada. Eu olhei pra baixo e senti os meus pés molhados. O desgraçado do atirador de novo.”

Ricardo tomara um tiro do rifle que Miguel deixara no carro, com os cumprimentos de Guedes.
Ricardo rastejou de volta para perto do telefone e chamou por socorro. Tirou Cíntia da linha de fogo e constatou que ela ainda não estava morta.


- Rico....
- Fala, Ciça...
- Se..... eu escapar........ você..... e eu..... não vamos...... trepar........
- Tudo bem, mas pelo menos escapa que eu tento te conquistar mais tarde...
- Filhada.......


- Bom, o ferimento da sua perna não comprometeu veias, nervos ou osso, assim como o tiro em seu braço. Sorte sua, senhor Sampaio – tomar dois tiros deste calibre e sair virtualmente são e salvo...Apesar do senhor poder andar com a ajuda de uma muleta, recomendamos mais alguns dias de internação para que se restabeleça completamente. A respeito do senhor estar contaminado, estamos fazendo os exames neste exato momento e iremos tomar todas as precauções para que não seja contaminado com o HIV e-
- E a garota ruiva?
- Ela tem uma bala calibre .45 alojada a dois milímetros da terceira vértebra cervical. Ela está no operatório, estamos tentando retirá-la com o mínimo de seqüelas possível. A família dela está aqui na sala de espera.
- A sala de espera fica no meu caminho para a saída?
- Não senhor, por que?
- Por nada. Estou ME dando alta.



Agradecimentos à todos os filhos da puta que fizeram filmes noir antes deste conto-novela, a Regis Guerini Filho (o "pai" de Ricardo Sampaio") e aos donos de todas as referências veladas e abertas que foram feitas nesta pequena realização.

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