segunda-feira, 4 de outubro de 2004

Baile de Formatura

Ele estava num canto do salão de baile. Mais por pressão da família que por vontade de estar com seus colegas de classe. Na verdade, ele os odiava. Se sentia desconfortável sem seus All Star sujos de barro, e com o cabelo ajeitado para trás, ao contrário do redemoinho que sempre fora sobre sua cabeça. Morava num bairro afastado, e ganhara os sapatos de um amigo que se mudara para Quixeramobim, por razões de saúde dos avós. Canapés, bebidas, uma banda horrível da escola tocando. A primeira entojada indo vomitar no banheiro. Tudo para ele era apenas mais um passeio, olhos através do vidro do ônibus que o levava para o colégio no centro da cidade.
Seu pai estava lá, vendo-o a distância. Ele tinha vergonha do filho, do seu sedentarismo e do seu jeito de ser, e de vestir. Ele havia sido estivador no porto de Vitória, mas as costas o afastaram para o balcão de uma padaria que herdara do irmão mais velho. A mãe era uma ex-acompanhante de baixo nível, que conhecera a Assembléia de Deus para poder consertar sua vida quebradiça e poder seguir com a cabeça erguida durante o dia na companhia do marido. Meio que uma terapia forçada.
Mas de volta para o baile. Ele continuava encostado na parede apanhando as taças de vinho branco e champanhe. Uma por uma. E mais uma, e mais uma. Não dera o furor que o álcool dá nos jovens, apenas uma vida um pouco menos patética. Até mesmo a banda de apenas dois acordes se tornou um pouco mais afinada. Com um sorriso que mais se parecia com um espasmo no rosto, ele acendeu um cigarro perto da porta do banheiro feminino e caminhou para a sacada do terceiro andar do salão de festas.
Nesse momento a banda tocou "Only in Dreams". O jovem deixou a cabeça pender para trás no pequeno arrimo da sacada para tomar um ar. Para lhe acompanhar, uma jovem morena de olhos castanhos-claros.

- Oi.
- Oi, moço.
- E agora, o que será de nós?
- Sei lá. Alguma idéia?
- Talvez Antropologia. Vou morrer um pouco de fome.
- Vou para São Paulo, com minha família.
- Boa sorte.
- Queria que você viesse comigo.
- Sem essa, baby. Eu não acredito em sonhos.
- E nisso, você acredita?

Naquele momento, ela segurou seu rosto e trocaram um beijo molhado. Apaixonado, um beijo que o fez ver estrelas na noite chuvosa de dezembro numa cidade perdida em algum rincão do Sul do Brasil.

O corpo dele foi encontrado esmagado sobre o capô de um Uno. Ele trazia um sorriso rasgado no rosto. Parecia ter tido o sonho mais doce que homem nenhum jamais teve.

3 comentários:

Whiskey Jack disse...

Now that's a fucking nice dream, man!

Anónimo disse...

Aki eh o coxinha, nao to afim de fazem um login soh pra postar.
Pó Magrones podia jurar q foi o Juiz q posto isso, resolveu fikar meloso?

Mas foi uma bela Historia.

Anónimo disse...

JUIZ:

ha ha ha, engraçadinho você hein, Rodrigo.
Meloso o caramba!