sexta-feira, 3 de setembro de 2004

Parte 7 de "Código de Honra" - 'Choose your friends'

Eu tava apagado no chão quando a Cíntia chegou e me viu numa poça de sangue. Ela sabia que a chave reserva ficava embaixo do xaxim do fim do corredor. Eu tinha contado pra ela tempos antes caso alguma merda acontecesse – nunca se sabe. Pois bem, a merda aconteceu. A merda da bala tinha acertado a veia principal do braço esquerdo, perto do ombro, por sorte ou azar o osso tinha ficado intacto. Aos poucos eu não sentia o braço. Ela me disse mais tarde que por mais ou menos dez minutos eu não tinha perdido o braço, ou coisa pior. Fui acordar por causa dos tratamentos dela.
Não podia voltar pra casa. Nem fudendo. Eu tava marcado, quem sabe o cara estivesse me esperando do lado de fora, dentro de casa, eu já não sabia onde colocar a porra dos meus pés. Cíntia ofereceu o seu canto, depois de meia hora de ficar argumentando que ainda precisava de tratamento médico. Não tinha motivo contrário, se ela topava os riscos, ótimo pra mim.
Ela saiu pelos fundos da garagem do prédio, comigo na mala do carro, sangrando e fudido rezando pra que não despertasse suspeitas dos mil quatrocentos tantos assassinos que estavam na minha cabeça. Apesar de inconscientemente saber quem era que tinha pelo menos puxado o gatilho na minha cara.
Já tinham se passado alguns dias, estava um pouco mais forte e com o pensamento mais conciso em quem tinha tentado me matar e que com certeza já sabia que eu não estava morto.

- Como está o braço? Acho que vai precisar de umas sessões de fisio, mas tomara que não. Tome esse comprimido, e vai ajudar a encarar a noite.
- Valeu por cuidar de mim em casa, obrigado mesmo.
- Quando alguém tenta te matar e você não testemunhou um crime, as chances de continuar vivo num hospital não são animadoras. Se bem que acham que você morreu.
- Talvez não seja assim tão simples. Cíntia...
- Fala, Rico...
- Eu acho que sei quem foi... Mas antes tem que fazer uma coisa por mim.
- O que é? Remédios pra dor?
- Também. Vai no meu escritório. Tem uma estante de arquivo, tira todas as gavetas e lá dentro você vai ver uma pasta de escola vermelha. Não vai em hora de pouco movimento, se possível vai com alguém de confiança. Cadê o seu noivo, aliás?
- Ele foi embora. O Juca tinha outros planos pra vida dele e eu estava aqui o estorvando. Então eu decidi tirar um tempo pra mim.
- Não sai mais? Nem vem com essa.
- Tente ser residente no HC que aí sim você vai ver que vida social linda e maravilhosa você pode ter, é um pequeno pedaço do inferno.
- Acredite-me quando eu sei o que é o inferno.
- Soube da sua amiga, eu sinto por ela.
- Não sinta. Não precisa sentir nada. Não você.
- Vou amanhã, é minha folga. Vou tomar cuidado.
- Hey! Você tem “Trainspotting” em DVD! Esse filme é foda!
- O Juca deixou. Acho que você gostaria de conhecê-lo. Pode ver, se quiser.
- “Choose Life”. O mais interessante do filme, pelo menos pra mim, é o trailer dele. “Escolha uma vida, escolha um emprego, escolha uma carreira, escolha uma família”... e toda aquela merda.
- É muito bom esse filme. Não imaginava que um detetive particular tivesse tempo pra ver filmes, apenas ficasse seguindo casos e mais casos...
- .......
- Desculpe. Boa-noite. Não quer vir?

Uma mulher oito anos mais nova me chamando para a cama. Foi a coisa mais difícil que consegui dizer nessa vida.

- Desculpa, mas vou dormir aqui na sala. Mais perto da porta, você sabe. Além do mais, eu não vou fazer muita coisa com um braço estropiado e que mal se mexe ainda.
- Quando essa coisa toda acabar, espero que consiga superar um pouco desses traumas e neuras. Você fica mais bonito quando não está com o rosto tenso, pude ver quando esteve desmaiado.
- Obrigado pela parte que me toca, Cíntia. Boa-noite.

Não dormi direito nos dias seguintes, e não era por causa do sofá, do braço ou dos remédios que mais me faziam ficar ligado que dormir. O que vinha à minha mente eram os dias que antecediam minha demissão da Polícia. Era um filminho que passava na minha cabeça. Eu trabalhando contra meu colega. Mas ele não era o único que sacaneava o Sistema. Metade do Denarc rachava o que apreendiam pra vender no paralelo. Um dia desses vi aquele velhote falando com o Rezende sobre o filho dele, nem sabem que aquilo é apenas o começo. Mas nem eu nem aquele cara começamos isso. E eu terminei com isso. Claro, tinham uns filhos da puta que achavam que poderiam colocar medo em mim. Apenas me diziam que eu tinha acertado no nervo deles. Eu ria que nem uma velha histérica com tudo aquilo. Não sei bem o motivo. Depois disso, cumpri minha parte com o Sistema e saltei do barco e aqui estou eu, no sofá da filha de um colega que tinha um mínimo de simpatia por minha fuça, com um princípio de infecção, um braço semi-inutilizado e minha cabeça a prêmio.


Continua. Um dia.

2 comentários:

Whiskey Jack disse...

Deveria ter ido pra cama dela, har har har.
Vai que nosso herói morre no fim da história.

Anónimo disse...

André, habilita a opção de comentar anonimamente no seu outro blog!!!!!
Eu ia fazer um comentario meio revoltado-depressivo, mas como era revoltado-depressivo me recusei a criar uma conta no blogger!!!!
Bom final de feridão pra vc!
Carol
http://naestrada.zip.net