domingo, 8 de agosto de 2004

Parte dois de "Código de Honra".

Nesse momento, as pessoas ao redor da praça buscam abrigo, enquanto o Pregador se mantém abraçado à Bíblia enquanto entra em estado de choque numa poça de sangue diluído pela chuva, com um rombo na altura do fígado.


Era quarta-feira. Uma quarta-feira quente. A moça do Self Service deixou o P.F. de frango com purê oriundo do pé-sujo há alguns na portaria do prédio. Voltei da pausa para a cerveja e apanhei o almoço com o porteiro de queixo pontudo - o fodido escrevia Deus sabe o quê em seu caderno. Quem sabe um diário de todas as putarias que ocorriam naquele prédio ou mesmo apenas estava deixando sua poesia sair. Mas não me importava.
Entrei em meu escritório entulhado de caixas e mais caixas. Algumas delas possuíam detalhes de casos que os clientes não se deram ao desbunde de apanhar para usar em seus processos de infidelidade conjugal, problemas de firma, fraudes com Seguro de Vida - depois que aquele casal arrancou a mão do marido para conseguir o seguro de vida há alguns anos, o trabalho nesse campo se tornou mais fértil. Mas na secretária eletrônica não havia nada. Não havia nada graúdo desde o caso daquele viadinho filhadaputa e de novo o pessoal do cabo andou enchendo o saco. Coisas da vida - se você não quer dar de cara com o Cidade Alerta toda tarde, tem que fazer alguns sacrifícios.
Me sentei e abri o marmitex: uma montanha de arroz para dois grãos de feijão, um pingo de purê e uma coxa de frango mais magra que a secretária do consultório de psicanálise no quarto andar, tudo isso pelo módico preço de quatro reais e quarenta centavos. Liguei a tevê no programa do Jorge Kajuru e tentei engolir a comida com os insultos do gordo da Bandeirantes contra meu time que ia mal das pernas. Apesar do meu velho sempre torcer para a Portuguesa, tinha meu coração plantado na Fazendinha desde os sete anos de idade e não me arrependia, ainda mais nesse momento. O programa já estava no fim, e a marmita estava intragável. Fechei-a, atirei-a no cesto de lixo do banheiro e me sentei à frente do computador. Ele tinha como papel-de-parede uma antiga foto dos companheiros na Polícia Civil, quando ainda fazia parte do D.I.G. (Departamento de Investigações Gerais) junto com o Charles, Frederico, Caio e o César. Charles morreu em um tiroteio com seqüestradores há seis anos em Francisco Morato. Frederico concursou para a Polícia Federal. César foi afastado por problemas mentais depois de ser encontrado babando, mijado e cagado em casa depois de faltar por três dias ao trabalho. Ele tinha matado a esposa e a filhinha menor com um martelo e havia enterrado ambas no fundo do quintal na Vila Mazzei. Caio Abreu, antigo colega e amigo pessoal de Sampaio, era um dos investigadores mais promissores da Polícia Civil em São Paulo, recebera comendas por seu incrível desempenho. Entretanto, os honorários de Caio recebiam um "boost" de propinas, vindas de um cafetão chinês que mantinha um clube de elite com menores de idade nos Jardins. Descobri a verdade e guelei o cara mesmo, depois de extorquir dinheiro suficiente para me manter na tempestade que viria mais tarde.
Não vou esconder que sofri uma puta pressão de outros colegas para dissuadir-me da idéia de entregar um companheiro de trabalho, mas num dos poucos momentos de integridade que tive nessa porra de vida, cantei como um passarinho para a Ouvidoria da Polícia Civil para me demitir no dia seguinte. Com o dinheiro que arranquei do Caio, montei o escritório de investigação particular, a mobília, a TV por assinatura, além de um porte de armas devidamente regularizado, visando me proteger dos bandidos e dos mocinhos. Com duas pistolas Beretta 9mm (uma na cintura, outra na gaveta da mesa de trabalho), além de um Rossi calibre .38 junto ao sofá-cama onde costumava dormir quando tinha trabalhos a fazer. Não criava animais, não possuía mais família, não havia preocupações ou pontos fracos psicológicos. Gostava de pensar que, num mundo de modelos-e-atrizes e exames de próstata, eu tinha orgulho de ser um filho da puta sem me importar comigo e com meus pecados.
Naquele momento, nuvens fecharam o céu de São Paulo. "Mais uma chuva, me fudi com o carro", pensei na hora. Olhei para a janela de seu escritório, de onde podia ver a Estação da Luz. Não sei bem o motivo que me fez ir pra janela olhar um pouco o inferno no qual vivia, aquilo que ele havia escolhido como lar. O ronco de um helicóptero amarelo passou sobre o prédio vizinho.

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