quarta-feira, 18 de agosto de 2004

Parte 4 de "Código de Honra" - 'Paranóia'

Fui saber disso meses mais tarde, já que tudo que eu sabia era do helicóptero e tomar a porrada no corpo. A bala calibre .338 Lapua Magnum levou 0.9 segundos para atravessar os cento e quatro metros que separavam-me do filho da puta que resolveu me pegar pra cristo. Atravessou a janela sem estilhaçar, atingindo-me e lançando-me para trás num rodopio para a esquerda, por sobre a mesa e caindo em cima da poltrona.

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Miguel recolheu seu equipamento, com cuidado na bolsa de ginástica, uma valise improvisada para seu melhor rifle de longo alcance, um Remington de fabricação americana. Da sala em que estava, apanhou o telefone.

- Guedes?
- Fala mestre, o que manda?
- Fala pro engomadinho que o serviço tá feito. O cara foi despachado.
- Certeza?
- Como é?
- Foi mal, foi mal.... Eu sei que tu é ponta-firme.
- Avisa o cara que eu quero o meu dinheiro até amanhã. Senão já sabe como eu costumo fazer com filhos da puta que me sacaneiam.
- Sem problemas, Máiquel.
- Se me chamar assim de novo, tu morre.

Tentei contar na minha cabeça cinco minutos, mas a dor era foda, parecia que um tubarão tinha arrancado o meu braço com uma mordida, mas ele ainda estava lá, inteiro. Ardia, queimava, a merda da bala não tava lá. Não parava de sair sangue. Saquei o celular.

- Cíntia......
- Rico?
- Vem pro meu trabalho......... e vem pra trabalhar..........
- Cê tá legal? O que houve?
- Vem logo....... por favor..... caralho....... tá doendo pra cacete.........

Cíntia Rodriguez Siqueira. Estudante de Medicina pela Santa Casa, no último ano. Era filha de um antigo colega na Polícia Civil, era sempre vista nos churrascos de confraternização, a despeito da corja de tarados que havia na polícia. Sempre com um temperamento forte, decidiu se tornar médica depois de ver o pai, o chefe de investigações Carlo Roberto Rodriguez, um peruano naturalizado brasileiro, na cama de um hospital após um tiroteio com traficantes de drogas quando abordaram um caminhão transportando cocaína na Castelo Branco quando ela ainda era uma criança de oito anos.

Não sei direito quanto tempo ela levou pra chegar no escritório, mas a única coisa que passava pela minha cabeça era que eu tinha acabado de entrar num filme de espionagem. Paranóia deixa de ser um conceito quando usam você como alvo à longa distância e então o piloto automático do manual dos filmes de James Bond liga por si só. Me arrastei com aquele ombro fudido pelo carpete, por baixo da janela, rezando ao Pai que o atirador achasse que tinha me despachado. Lembrei do revólver que estava dentro do sofá, apanhei o dito e fui pro banheiro. Lá tinha um duas-bocas e uns talheres limpos. Esperava a Cíntia com o braço esquerdo e esperava qualquer filho da puta que tentasse acabar comigo de verdade com uma Rossi calibre .38 na mão direita. Pensei em queimar a faca e cauterizar, mas era mais capaz de eu fazer merda pensando que era o Rambo que fazer algum bem pra mim mesmo e pra quem fosse me atender.

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