terça-feira, 3 de agosto de 2004

Finalmente, depois de meses de promessas não-cumpridas, o fim de "Lutamos com a Lei".

- Então, o que aconteceu aqui?
- Na verdade, nós estamos acompanhando vocês desde que vocês se entendem por civilização. Cada passo, cada vitória na sobrevivência, cada momento de generosidade e cada fracasso. E, ultimamente, vocês tem fracassado demais. Conseguiram desenvolver um intelecto que pode levá-los aos confins do Universo. Mas se desgastaram. Seu povo nunca esteve tão próximo do limiar da aniquilação quanto no momento em que você escolheu sair desse mundo, Ismael. Por isso o escolhemos. Para nós, você lavou suas mãos de tudo isso, apesar de ter a desculpa de que o seu romance com a morena de olhos azuis o dispensara.
- Você não entendeu.* Ismael mostra o diário do combatente * O que isso aqui significa?
- Ah, os fatos. Sim. O povo conhecido por Estados Unidos da América sofreu uma pungente agressão, foram odiados pelo mundo e odiaram o mundo em troca. Até que houveram homens que se vingaram deles. Contaminaram grande parte de seus reservatórios de recursos naturais, deixando-os à beira da morte por sede. Usinas primitivas de conversão de água potável foram construídas às pressas para suprimir a falta de água, mas ainda sim muitos pereceram. O Brasil foi o que mais se aproveitou do momento, explorando seus reservatórios subterrâneos, vendendo água para os norte-americanos.
- Enquanto no Nordeste o povo morre.
- Exato. Mas os estadunidenses não aceitaram mais pagar para viver. Resolveram tomar à força. Primeiro por seus diplomatas, tentando instalar companhias exploradoras de água em seu território – o que foi negado. Depois de um ano de animosidades...
- Guerra.
- Correto. Foi então que decidimos agir. Ao perceber que era o começo de uma campanha de destruição sistemática, libertamos seu povo, e todos os outros povos do jugo dos “Estados Unidos”. Mas com o vácuo de poder que seus líderes desejaram para continuar com a batalha dramática pelo poder, vimos que necessitava uma completa reestruturação em sua sociedade, a partir de seu grau mais fundamental; sua civilização já passara demais por isso.
- Peraí, e aqueles soldados que estavam nas ruínas? Quer dizer então que tem mais gente solta nesse mundo?
- Claro. Nosso objetivo nunca foi a aniquilação da espécie que se auto-designou “O Homem Sábio”. Pelos seus registros mitológicos, essa não é a primeira vez que isso acontece, não é? Então... Apenas reeditamos a seleção dos justos e dos impuros. Selecionamos 198 pessoas, divididas meio-a-meio entre homens e mulheres, capazes de reconstruir esse planeta, baseados em princípios distintos de ética e filosofia de vida, mas todos eles voltados para o bem-estar e o progresso. Cada um foi rearquitetado em sua anatomia, corrigindo imperfeições como cansaço, doenças, defeitos congênitos em sua estrutura básica, e os deixamos seguir seus cursos. Não queremos uma horda de acéfalos que acham que estão no Paraíso, ou o Nirvana, Campos Elísios ou Valhalla, eternamente presos a uma rotina de lengalenga e, com o perdão da palavra, masturbação transcendental, sem destino nenhum para o seu futuro; não acreditamos em “felizes para sempre”. Queremos que vocês estejam ao nosso lado na mesa do Universo, e para isso tivemos que podar as arestas. Claro, muitos pereceram no processo, mas ainda sim foi por uma boa causa. Artistas, poetas, construtores, agricultores, livres de todo o mal, trabalhando para a reconsrtução da antiga Humanidade, agora com mais experiência.
- O que levaram suas mentes assim superiores a me escolher como o novo Noé?
- Boa pergunta. Na verdade, percebemos que se não introduzíssemos um exemplo negativo, um exemplo do passado, do que a Humanidade foi, não conseguiríamos sustentar nossa meta principal, a ambição enquanto motor do progresso. Você é o exemplo do não, do proibido, do que deve ser evitado. Um jovem niilista, suicida, com tendências psicóticas, é tudo o que querem que seus filhos e filhas não devem ser e que eles não irão querer ser. Você é o anticristo, em uma nova roupagem.
- Essa é nova. Me considerar um demônio, essa nem minha mãe deve ter pensado. Mas... Espere... Se esses “novos colonos” são tão perfeitos assim, como é que a Camila não me explicou isso de uma vez, lá em São Paulo?
- Ah... Esse é um detalhe deveras interessante. Apenas eu e você, nesse momento, sabem o que aconteceu de fato. Na verdade, tentamos fazer isso com quatrocentas mil pessoas sem apagar suas mentes, mas elas se revoltaram, levantaram a mão àqueles que os salvaram de sua miséria iminente. Nos causaram grande contratempo em nosso cronograma. Eles se esconderam, eles nos atacaram, eles nos insultavam continuando a viver em suas existências desregradas. Até que o último foco foi extirpado. E com isso, aprendemos - não somos perfeitos, ao contrário do que você pensa. Não somos mensageiros de seu “Deus”. Não somos a Besta do Apocalipse. Somos apenas um povo que preza pelo equilíbrio de todas as coisas no Universo. Pelo beijo ou pela espada. Na verdade, essa é a primeira vez que fazemos isso, vocês foram o nosso mais ideal balão de ensaio.
- Que mundo maravilhoso...
- Mas isso não significa que sofra as agruras que possam ocorrer com os malvados. Aqui e agora, o bem não vencerá o mal por simples satisfação dogmática; não há mais bem ou mal. Ainda sim pode ser feliz do jeito que mais lhe convier.
- Sem escolhas? Sem “pílulas”, sem drama no final do filme?
- Quem disse que isso aqui é ficção, Ismael?
- Sei lá, o “Grande Arquiteto Do Universo” pode ter bolado tudo isso para preencher as suas noites de tédio e impressionar os outros “Grandes Qualquer-Coisa do Universo”...
- Ora, pare com isso.
- Então, nesse caso, pode me chamar de “Odin”, meu caro amigo. Combina com a cor dos meus olhos... ou do meu olho, que seja.
E de lá Ismael, auto-proclamado “Deus dos Desamparados”, em direção ao Sul de Minas tentando chegar a Ouro Preto, carregando na mochila o diário de Benjamin Garcia, uma faca e com uma bandana improvisada sobre seu olho morto, assobiando Jefferson Airplane.

2 comentários:

Whiskey Jack disse...

Uhúúú!
Muito bom , muito bom mesmo.
Quando é que o Oliver Stone e o Discovery Channel vão levar pras telas?!?!
Parabéns e continue assim.

Anónimo disse...

Concordo com o outro comentário. Deveras, ficou muito bom.
Iris.