sábado, 3 de julho de 2004

Parte quatro de "Lutamos com a Lei" - o Diário de Batalha na 'Casa da Vovó'

Sete de Setembro de 2010 – 00:13
Parece ironia, mas não acredito que duremos até a manhã – quem diria que fôssemos morrer no Dia de Independência? Ainda lembro do filme ianque. O Coronel teve a idéia de deixarmos uma mensagem lá fora perto da Casa, caso alguém apareça, caso tenhamos algum futuro. Mas eu sei que o barco pára pra nós todos hoje, onde quer que haja alguém, eu sinto isso. Eu já sei o que vou escrever, estou esperando o Pepe voltar pra fazer fogo de cobertura, caso ataquem. O André, depois de ter escrito, foi pra longe e depois escutamos um tiro – acho que ele não quis dar esse prazer para aquelas coisas. Depois de eu voltar, ficaremos entrincheirados nós todos, até eles aparecerem. Até eles aparecerem.

Cinco de Setembro de 2010 – 19:40
Conseguimos resistir mais um pouco, mais uma onda daquelas coisas. Parecem até que estão brincando com a gente, aparecem de vez em quando, atiram na gente, levam um ou outro e somem. Claro que pegamos alguns deles pra poder dar um ponto de honra pra nossa turma. Mas cada vez mais eles estão ficando complicados. Hoje precisamos de três tiros de bazuca pra poder derrubar um deles, mas eles eram quinze. O Coronel disse que há uma segunda casamata camuflada perto da estrada, perto da Via Crucis, vamos pra lá quando a luz da lua assim permitir. O Flávio falou que vai ficar aqui tentando chamar alguém pelo rádio, ver se há mais algum outro foco desorganizado como o nosso. Mas eu acho que não há muita gente, pelo menos ao alcance do rádio.

Três de Setembro de 2010 – 02:55
Aquelas coisas pararam sobre a cidade. Foi bizarro. Todo mundo correndo pra dentro da Basílica, tentando buscar abrigo na fé. Foi então que entrou um enxame daquelas coisas pelo teto da catedral, depois só ouvi aquele barulho de brocas de dentistas e mais nada. A mesma coisa na cidade, mas de forma mais organizada, mais parecia o Massacre do Gueto de Varsóvia. Hoje mandamos o Cacá dar uma olhada na cidade ver se conseguia alguma coisa pra gente comer, só que ele não voltou até agora. Hoje recebemos uma mensagem pelo PX, nada animadora: os americanos estão mortos ou em retirada do país e largaram todos os poços de prospecção de água. Com certeza, a ocupação acabou e todos achavam que Deus era brasileiro. Depois começaram a nos atacar, sistematicamente. Um cara em Botucatu falou que Marília tinha sido destruída. Varginha, Goiânia, Campos, Recife. Foi então que eu me lembrei que uma vez os americanos iriam dominar Marília, segundo o Arbex. Complicado, né?

Trinta de Agosto de 2010 – 04:07
Estamos há dois dias nesse buraco e nenhum sinal dos outros pelotões, nem qualquer outra coisa no PX. Depois de anteontem, vai ser um milagre se houver. Hoje à tarde ouvimos um estrondo para os lados de SJC, a cidade deve ter sido riscada do mapa, provavelmente por causa do CTA. Só falta ser a lenda urbana dos russos terem apontado o míssil pra cá. A essa altura do campeonato, não duvido de mais nada.

Vinte e Nove de Agosto de 2010 – 23:41
Luzes apagadas e silêncio absoluto de novo. Janelas fechadas. Mesmo assim, o Coronel pediu pra eu apagar a lanterna e fosse dormir até a troca de guarda, mas eu não consigo, com ou sem pílulas. Eu estou escrevendo do banheiro, o cheiro é foda, afinal de contas não tem latrina aqui, apenas um buraco no chão. Meu cérebro ainda tenta decifrar na sua estupidez o que aconteceu.
Agora posso falar o que aconteceu. Tínhamos um plano, tínhamos vontade e algum material para poder fazer alguma coisa com aqueles americanos filhos da puta, que vieram nos rezar o Destino Manifesto. Um amigo meu no Rio havia nos dito que haveria uma transferência de tropas do Rio para São Paulo, via Dutra. O objetivo era atrasar os americanos até haver uma segunda linha de ataques em São José dos Campos.
Então, iríamos atrasar a vida deles um pouco, com a ajuda do Coronel, o único que havia recebido treinamento militar de verdade – o resto de nós era um bando de psicopatas, rebeldes, curiosos e suicidas que no máximo havia recebido um pouco de treinamento do Tiro de Guerra. O Coronel havia tido treinamento no Corpo de Engenheiros, sabia como atrapalhar a vida deles pra valer. De madrugada, fomos até um cano de esgoto que passava sob a estrada, colocamos um bom tanto de explosivos roubados (acho que uns cem quilos) de uma pedreira no cano, bem sob a rodovia. Na verdade daria a mesma que tentar detonar um estalinho na frente deles, mas era apenas uma distração pra começar um tiroteio contra eles. Sabíamos todos que era uma missão kamikaze. E ainda sim tinha uns doze ou quinze pirados que toparam a parada, pensando que iam pra Valhalla mais rapidamente. Qualquer coisa, tínhamos a Casa da Vovó, um bunker particular que foi confiscado e transformado no nosso forte caso eles viessem para cima de nós.
Era mais ou menos umas seis da manhã quando a coluna passava, depois do primeiro tanque e quando havia um APC de transporte, detonamos o explosivo e ficamos numa elevação, escondidos pelo mato atirando contra eles com armas roubadas do TG, mais velhas que meu pai. Acho que eu levei dois americanos, mas o Albino que tava do meu lado tomou um balaço no olho esquerdo, a cabeça dele se abriu como se fosse um côco. Foi foda. Então eles apareceram, pairando sobre nós como deus-sabe-o-quê. Eram como destróieres, que começaram a atirar nos americanos, que começaram a devolver o fogo junto com alguns de nós, de bicudos. Não sei como, eles deveriam ser foda, conseguiram derrubar um deles do ar, que sumiu antes de cair, mas então o segundo não soube brincar e ‘rapelou’ toda a coluna. E nós fomos a sobremesa. Antes mesmo do Coronel dar a ordem, eu e mais uns seis tínhamos pego o caminho da roça até a Casa da Vovó. Agora estamos todos aqui.


As outras anotações no diário tratavam de detalhes técnicos da guerrilha, anotações sobre montagem do rifle Mauser que o jovem empunhava na outra mão, manuais de montagem de armadilhas, amenidades do cotidiano e descrições dos companheiros com quem ele convivia na Guerrilha, chamada por ele de “pelotão”, então a primeira anotação: oito de março de 2010. Foi no dia seguinte à tentativa de suicídio de Ismael Rodrigues Passos em São Paulo.
De posse do diário, Ismael desceu pela trilha até a Basílica. Lá, como descrito no diário, haviam pilhas e mais pilhas de cadáveres, todos mortos de maneira semelhante ao que havia acontecido no forte: perfurações profundas à altura do esterno, com sinais de queimadura nas roupas. Atordoado, Ismael começou a gritar desesperadamente, como uivos de um canino desgarrado, como uma criança perdida no Mercado. Esquecera que seu olho estava ferido e começou a esfregar compulsivamente ambos, e caiu com uma falta de ar devido ao fedor dos corpos.

Continua.

A seguir: o Final de "Lutamos com a Lei"

3 comentários:

Anónimo disse...

Olá bélico André!
Só vim te dar um salve mesmo. Hoje estou totalmente sem conteúdo... Afinal é domingo e o Tico e o Teco estão de recesso!!!
Beijão!
Carol

Anónimo disse...

Esse negócio tá louco demais!
Iris.

Whiskey Jack disse...

UAU! Muito bom , MAg!
Continue assim. Estou feliz por ter me enganado sobre os rumos desse conto.