domingo, 27 de junho de 2004

Continuando com a onda repentina de posts... Parte 3 de "Lutamos com a Lei"

Ao vê-la se aproximar, percebeu que a arma que ela deixara cair estava a seu alcance. Apanhou-a e descarregou na sua direção, enquanto ela tentava empalá-lo com o vergalhão, a dois passos de Ismael. Dos doze tiros que haviam no carregador, sete a atingiram. Camila caiu para trás, puxada pelo peso do vergalhão, com os olhos vidrados. Ismael largou a arma e saiu correndo cambaleante por entre os resquícios da cidade, com medo de haverem mais pessoas atrás de sua cabeça. Sem rumo, nas sombras da cidade numa noite sem lua.
Ismael esperava compulsivamente por mais resistência, ainda mais que tinha visto soldados profissionais dos Estados Unidos envolvidos. Se ele tentasse voltar para o tanque, seria um alvo fácil para as aeronaves, e manteve-se em seu abrigo improvisado por mais um dia, novamente sem fome, sede ou necessidades. Esperava pela morte certa, que acabou por se esquecer de aparecer para Ismael. Nas primeiras horas da segunda manhã em São José dos Campos, decidiu sair de sua toca. Ouviu unicamente o som do vento uivando sobre as sobras da cidade, um anúncio de sua solidão. Desde que partiu de São Paulo há poucos dias, aquela foi a primeira vez que teve um momento de calma em sua busca. Finalmente conseguiu perceber o céu sobre sua cabeça – nuvens projetando sombras sobre a paisagem distante, uma brisa que o refrescava tanto quanto um beijo de despedida de alguém que um dia o amara. Era uma imagem de paz num mundo corroído pelo ódio.
Ismael se lembrara de como tudo começara, ou do momento anterior ao início de tudo. Estava em sua casa nos arredores da Zona Oeste de São Paulo, em seu quarto quando tomou quatro cartelas de antidepressivos, calmantes, aspirinas e anfetaminas, todos misturados, com uma garrafa de cachaça barata que comprara na tarde anterior. Havia sido dispensado por uma garota com quem se relacionara há mais de quatro anos. Ismael assistia a desenhos animados na televisão enquanto se drogava, e a última coisa que se lembrara era da voz do Mestre dos Magos ser interrompida pela chamada do plantão da equipe de jornalismo do canal.
“Sem luz, sem água, sem comida. Não como faz dois dias e estou sem um pingo de fome, sede ou vontade de cagar. Não há cadáveres, mas não foi uma Bomba H, afinal de contas ainda existem plantas vivas. Até agora, os únicos que encontrei vivos acabaram sendo mortos por mim, friamente. Que ironia. Isso tem que ser um sonho bizarro, mas meu olho dói, sangra e me incomoda. ALGUÉM PODE ME DIZER ONDE FOI PARAR MEU MUNDO, HEIN?”
Deus não respondeu suas perguntas. E Ismael rumou para perto dos corpos de Camila e dos dois comandos americanos. Todos eles estavam com um aspecto asqueroso, com a tez enegrecida e feições retorcidas, semelhantes a múmias, mas que não tinham morrido há menos de dois dias. A putrefação era inegável, sendo que Ismael usou o vergalhão com o qual Camila tentou matá-lo para remover a mochila de um dos soldados, por causa do cheiro forte de carniça, e pela primeira vez Ismael viu um animal depois de todo o caos: um urubu-rei. ‘Cpt. Franchetti”, estava escrito na mochila que apanhou do defunto. Lá, encontrou mais munição para armas, binóculos, algumas tochas para sinalização, uma carga de demolição de pontes e um kit de primeiros socorros de campanha. Ele deixou uma tocha sinalizadora, dois pentes de rifle, a carga de C4 com os detonadores prontos para serem ativados por rádio dentro da mochila e usou o kit de primeiros socorros de uma maneira improvisada, mas melhor que a bandana improvisada sobre o olho esquerdo que fez duas noites antes. Ele sabia que perderia o olho, mas aquilo seria um alento para a próxima noite.
Decidiu ir para o tanque, ver se sobrou alguma coisa, se poderia aproveitar, julgando que o APC fora destruído pelos americanos após matar dois de seus soldados – ele ainda tinha essa paranóia persecutória. E lá estava o blindado, intacto e reluzente, com a bateria fraca por ter ficado dois dias com as luzes acesas.
“De uma maneira ou de outra, ele não era um bom veículo para chegar ao Rio.” Encontrou ali perto uma loja de motocicletas, das quais uma ainda estava operante, apesar do furo no topo do tanque de combustível. Mas o furo não era maior que a circunferência do dedo mindinho, portanto com algumas camadas de fita prateada, estava completamente vedado. Não completamente, como Ismael pôde constatar quando colocou o combustível. Com aquilo tinha pouco menos que a capacidade máxima do tanque, o que o possibilitaria rodar por um bom pedaço de chão até o Rio de Janeiro.
Conseguiu chegar até os limites de Aparecida, a cidade da Padroeira do Brasil, antes da gasolina acabar na motocicleta. Ele se lembrara do filme do Walter Salles que nunca tinha visto, prometera ver com sua namorada, mas o romance não resistiu até a sessão de cinema. Ele não conseguiu segurar o palavrão-interjeição. A Basílica estava um pouco mais em pé que os outros prédios. Apenas parte da cúpula central havia caído, provavelmente era um tiro para desmoralizar, ou mesmo um tiro por engano – os “americanos” costumavam errar feio os seus alvos. Mas o que mais chamou a atenção de Ismael foi a bandeira branca hasteada num morro mais ao leste da estrada, com luzes numa espécie de casamata.


-Ismael, Ismael.
-Quem diabos é você?
-“Diabos” não que o único “diabo” aqui é você, Ismael.
-Quem...é...você...então?
-Essa é uma pergunta bastante filosófica e.. bastante inútil no seu caso, no seu contexto. Com certeza eu sou alguém, “penso logo existo”, entretanto a minha existência possui um único objetivo, que logo, logo estará cumprido. Então eu teria existido para “nada”? Mas ainda sim sou “algo”...
-Corta o zen-budismo. O que aconteceu aqui?


Era impossível alcançar a trincheira por uma escalada direta, entretanto havia uma pequena trilha circundando o morro, de maneira que ela fosse acabar nas “costas” do morro, perto de onde poderia ser a entrada para o forte. O herói começou a caminhada para a escalada, porém rapidamente se cansou e sentou-se numa pedra de costas para o abismo para tomar um pouco de fôlego enquanto procurava entender as partes do enigma que não se encaixavam. Foi então que a verdade foi-lhe descortinada. Ele percebeu que perto de suas botas tinham cápsulas de rifle já bastante enferrujadas. Olhando à frente, viu que sob a folhagem da arribanceira, já densa, havia uma placa de granito preto com uma cruz esculpida de forma bastante rústica – na verdade havia apenas a silhueta da cruz gravada.
Afastando um pouco da lama que havia sido incrustada na placa, estavam gravados nomes e apelidos, juntamente com mensagens melancólicas; despedidas de amores, declarações de ódio e pedidos de perdão. Próximo ao chão, de maneira trêmula, estava escrito: “Aqui jaz a Humanidade, aqui jaz um Deus que não existe mais”. As prováveis explicações a respeito estariam dentro do forte. Ismael deixou todas as suas coisas para trás e correu morro acima.
Lá dentro, Ismael encontrou mais seis cadáveres em estado de putrefação avançada. O teto havia sido detonado por alguma espécie de explosão no centro, deixando uma “ilha” de luz externa, rodeada por caixas vazias. Uma lâmpada fixada numa das paredes ainda funcionava de modo automático de um pequeno painel solar do lado de fora. Os corpos, estavam menos apodrecidos que os de Camila e dos soldados americanos. Um dos cadáveres, que estava em posição fetal no banheiro improvisado, segurava uma agenda de capa verde, improvisada como um diário de campanha. Com uma letra quase ilegível, era quase impossível de ser decifrado. O herói prendeu a respiração para poder apanhar o caderno da mão quase ressequida do jovem, que parecia haver tido cabelos castanhos e começou a ler as anotações do fim para o começo, um costume que tinha quando criança.

Continua.

1 comentário:

Whiskey Jack disse...

Eita que o negócio tá ficando bom, Magrones.
Acho que aquela teoria minha a respeito do que diabos aconteceu está errada.
Mas a história está muito boa.