terça-feira, 22 de junho de 2004

Continuando com "Lutamos com a Lei" - parte dois.

São José dos Campos, antes uma próspera cidade, agora estava reduzida a poeira e escombros. Alguns incêndios sob prédios residenciais recendiam colunas de fumaça e pequenas labaredas, o Paço Municipal estava em escombros. O Centro Técnico Aeroespacial, base militar de primeira importância na Defesa era nada mais que um buraco na paisagem, consumindo os morros e lagos que lá havia. Um vale de lágrimas, com a chuva que caíra recentemente. Perto dos bairros do centro da cidade, o herói ordenou a parada do transporte a Camila. Apanhou um fuzil FAL que estava junto ao banco do co-piloto e disse:

-Eu vou dar uma olhada nos arredores. Qualquer coisa, vai embora sem olhar pra trás.
-Você é que pensa. Eu vou contigo.
-Mas como, se você nem sabe como manejar-

*click clack*. Ela apanhou a pistola do coldre do herói sem que ele pudesse perceber.

-Ainda acha que sou uma bonequinha de luxo?
-Você já foi mais humilde, sabia?

Na rua também não havia cadáveres, assim como em São Paulo. A devastação era inegável. Não havia um único prédio em pé num raio de quilômetros. Os que não estavam em chamas estavam simplesmente reduzidos a uma pilha de poeira, concreto e ferro retorcido. Estabelecimentos de comida emanavam o cheiro de podre de frutas e carnes há muito descuidados. As perguntas não cessavam na cabeça do herói: “Como isso tudo aconteceu? Quando tudo aconteceu? E onde diabos foi parar todo mundo?” Ele tentou perguntar isso a Camila, que fingiu ter ouvidos moucos às perguntas.
Mais à frente, ambos ouviram um barulho. Uma conversa. Ele tomou posição de assaltante, à espreita do bote contra seus possíveis inimigos. Uma conversa em inglês. Dois soldados, portando armas pesadas, conversavam numa esquina perto de onde ficava uma antiga casa de jogos eletrônicos. Como se estivessem esperando um terceiro amigo, eles assobiavam. O herói, já com o rifle destravado, fez mira e atirou quatro vezes. A primeira bala atingiu o pescoço do soldado que estava de costas. A segunda atingiu seu capacete, resvalando-a longe. O terceiro tiro foi para longe, entretanto o quarto disparo conseguiu acertar o olho direito do segundo soldado. Ambos estavam estáticos, pareciam mortos. Não se mexiam, não respiravam. Ao chegar mais perto dos corpos, ele ouviu o barulho da arma sendo destravada em suas costas.

-Agora, larga a arma, Ismael.
-Porra. Que história é essa? Está com eles, por acaso?
-Você me ouviu. Agora larga esse rifle velho e coloca as mãos na cabeça.
-Se você quer assim...

Naquele momento, ele girou o corpo para a direita, num pulo para trás, tentando dar uma coronhada em Camila, que desviou o corpo da investida, mas deixou cair sua arma. Ambos desarmados, começaram a lutar de mãos vazias nas ruínas da cidade. Cada golpe que ele dava surtia mais efeito nele mesmo que em Camila, numa forma física inacreditável para seu peso e tipo físico. Ela não cedia aos ataques, em contrapartida ela era quase uma faixa-preta em artes marciais de solo. Ismael notou que era inútil continuar lutando, e o medo juntamente com a perplexidade começaram a minar a força dos golpes no embate. A impermeabilidade de Camila à provável dor dos golpes, tal qual um personagem da ficção de Chris Carter, era uma dolorosa realidade – ela tomara o olho esquerdo de Ismael com uma cutilada da mão esquerda enquanto ele tentara esmagar o crânio dela com um pedaço de concreto enquanto estavam no chão. A dor o fez afastar dela, largando o pedregulho, gritando de dor. Acabara tropeçando num buraco e caindo perto de um dos cadáveres dos praças. Ela apanhou um vergalhão numa pilha de entulho, e com uma voz tranqüila, disse:

-Sinto muito, mas eu falei pra você largar a sua arma, Ismael.


Continua.

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