terça-feira, 21 de setembro de 2010

Outra historinha. Nem um pouco suja: “Rascunho do Viaduto do Cha“. Sem Acento.

Eu olho pra cima. O céu está armando para chover. Eu acho que até dá tempo até que eu consiga chegar no meu carro. Você aperta o passo, deixa o piso liso de pedra-sabão pra trás. Sei que seus sapatos vão te trair se você colocar os pés no piso liso, então tentas seguir um pouco mais rápido.
Saio pensando na vida. Pensando no que estou fazendo dela. Agindo como se deixasse um maluco trancado dentro de uma sala acolchoada, debaixo da sala de jantar ou da sala de visitas. Deixo todo mundo escutar seus gritos, seus impropérios, suas verdades irritantes. Mas não assumo que, bem no fundo, queria ver esse bando de enfadonhos ter que lidar com o meu irmão zureta, como se estivesse no banco de uma rodoviária em plena e impune madrugada, sem ter para onde correr senão suportar aquilo que não enxergam pelos seus autovirtrais.
A chuva começa a cair. Um pingo precoce. Ele vem depois daquele empata-foda de umidade, vento e frio que antecede cada chuva. Aquele manto de água que fica na sua pele e não está ao mesmo tempo. O instante em que se sente rompendo camada após camada de teias de aranha. Passa pela sua infância tosca, pelos apelidos que falavam pra você no primeiro dia que chegou à escola nova, passa pela humilhação das aulas de Educação Física. Passa pela Catequese e pelas coisas que não entende. Passa pela primeira vez que te chamam para o cinema, apenas por amizade, passa pelo primeiro fora. Passa pelo desastre da sua primeira noite, pelo primeiro toco em entrevista de emprego. Passa por tudo isso, vai rompendo e seguindo em frente.
Eu sinto essas coisas. Mas você.... Você sente essas barreiras, essas teias ao seu redor. E quer passar por elas tão rápido quanto gostaria de passar pela vida. Esperando que, no fim da vida, você simplesmente recomece tudo do zero. Siga pela mesma trilha, com uma idéia nova ou outra no meio de todo esse processo intrincado, essa peça de Moliére que te chamaram pra interpretar na última hora.
O pingo não está mais sozinho. Ele tem companhia. Várias companhias. Você pensa nas suas companhias. Eu penso em quem andou me acompanhando todos esses anos. Aproveitadores, sanguessugas, pessoas que jamais se importaram? Pessoas contratadas para interagir comigo? Oras, você sabe que um dia terá que pagar direitos autorais se disser isso em voz alta.
Você pensa em quem chama de companheiros, pensa nas barreiras, pensa nos traumas, nas neuras, no inferno que é morar em uma cidade. Pisa em falso no calçadão, em pleno Viaduto do Chá. Maconheiros, camelôs, pobretões, ciganos-falsos e todo o resto da cidade em uníssono ri de sua cara. E tudo o que você consegue pensar são “Malditos sapatos escorregadios”.
Você remoi a sua vida inteira em um segundo. Eu tento acender um cigarro. Mas não fumo, nem tenho um cigarro no meu bolso. Quanta tolice.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Mais uma historinha suja. “Baile Perfumado“.

Baile Perfumado
Por André Diniz

Ela tinha o cheiro da esponja de banho de Helena de Tróia. O perfume que saia de seus poros poderia atrair todos os navios da Hélade para uma batalha sangrenta, de décadas. O cheiro de suas roupas intimas, de seus lençois, das blusas de moleton guardadas no armário poderia render poesias, épicos, um filme com Keley Cuoco, Mel Lisboa e Deborah Ann Woll – todas em trajes sumários, levemente bêbadas, da pá virada. Essa menina. Uma mulher. Era uma coisa que ela fazia com naturalidade: balançava as mãos e, como se fosse um leque gigantesco, como daqueles que eu vi aos nove anos quando assisti escondido a Ligações Perigosas pela primeira vez, jogava seu perfume pelo ar.

Eu sou uma pessoa pervertida, não escondo isso de ninguém. Sou o tipo de pessoa que, ao ver uma bela bunda desfilando pelo calçadão do centro de São Paulo, para o que está conversando ou pensando para si mesmo e recito uma pequena oração. Um agradecimeto a Deus pela graça divina de ver uma bela bunda no meio de uma selva de concreto, vapor de enxofre e tabuletas de Compro Ouro. Agradecia uma coisa de... duas vezes por dia. Uns dias mais, outros dias menos.

Não sei bem quando comecei ou os motivos que me levaram a ser uma pessoa olfativa, quando se trata da mais bela obra de Deus desde os penhascos brancos de Dover. Lembro apenas que certa feita, não faz muito tempo, flagrei-me cheirando calcinhas dependuradas no chuveiro da casa de uma amiga, a quem eu visitava. Uma coisa completamente normal e desgrilada, na casa de uma estudante universitária, virou a minha picada no banheiro público berlinense de Christiane F, o meu começo de vicio só que sem a trilha sonora de David Bowie.

Nos projetos de relacionamentos que fui colecionando desde então, guiava-me mais pelos dotes odoríficos de minhas concubinas que, por de fato, seus dotes emocionais e em alguns dotes físicos. Obviamente não virei uma serpente para apenas sentir o cheiro da minha presa, mas tentem entender o meu lado: nem mesmo Brigitte Bardot com cheiro forte, daquele CC brabo, daqueles de ônibus lotado, só vai atrás quem é virgem ou quer mascarar sua própria homossexualidade com “Eu como qualquer coisa que sem mexa”.

Obviamente, eu acabei procurando terapia. Aliás, era necessário. Entrei numas de ficar cheirando o cabelo de mocinhas indo para o trabalho no ônibus. Acharam que eu era mais um daqueles tarados. E eu estava me comportando como um, confesso. Comecei a tentar achar alguma resposta na minha existência. Comecei a tentar ver a pintura como um todo, ver a tal beleza interior, aquela que não emana perfume. Até mesmo encontrei alguêm que me encaixava nas coisas que, em um passado bem remoto, procurava num relacionamento: gostar de cachorros, ficar em casa a ir num festival de rock, sexo daqueles que você perde peso como presente de aniversário, aquela coisa toda. Foi uma pessoa que bem, não era perfeita. Mas até aí, eu não era também. Nisso, fomos tocando a vida de uma maneira bem que tranquila, até que veio a bosta da minha vida. A minha danação.

Aconteceu num dia gelado de julho. Metrô vazio no comeco da tarde, véspera de feriado prolongado. Como se a cidade não estivesse morta o bastante. Ela veio até o meu banco para não ficar sozinha. Eu ia para o Terminal para buscar o meu carro no estacionamento. Fomos conversando, jogando besteira no ar. Até que ela acenou com a mão.

Meu caro amigo, me perdoe, por favor. Não tinha uma ereção daquelas, de levantar a bolsa com o laptop, desde a oitava série quando vi a Garotinha Ruiva subir a fileira de carteiras na minha direção. Aquela coisa nas minhas narinas foi quase um golpe dela com o Monte de Vênus na minha cara. Perdi o meu centro. Esqueci, naquele instante, da minha namorada, de todas as nossas viagens, de nossas declarações de amor.

Fui conversando da mesma maneira até chegar na minha estação. Fiz um cumprimento com a cabeça pouco antes do trem parar, sendo que ela também me seguiu. Fui até o meu carro, e ela entrou no banco do carona. Não consegui aguentar: puxei ela pro meu lado, roubei-lhe um beijo no pescoço que poderia ser usado mais tarde como evidência em processo por agressão com um desentupidor de pia.

Enquanto ela puxava os meus cabelos, ali naquele carro estacionado no terminal de metrô, invadi a blusa dela e meti aqueles peitos cheirosos na minha cara. Droga, eu quase disparei ali mesmo, sem mesmo colocar o time em campo, só com aquela visão dela, os mamilos rosados à mostra, deixando escapar aquele cheiro doce, meio de frutas e de ninfetas correndo pelo campo usando nada que uma coroa de flores silvestres na cabeça.

Caímos na Marginal e seguimos até o primeiro motel que havia, onde por quatro breves horas eu consegui meter como se eu tivesse 19 anos novamente. Com força, sem parar, apenas embalado pelo cheiro que vinha de seus pulsos, de seu colo, de seu pescoço. O cheiro que vinha de suas coxas, quando as lambia com o desejo de um gelato no verão cuiabano.

Depois de tudo aquilo, pouco antes de vencer a nossa hora no motel, perguntei-lhe qual era, afinal de contas, o nome do perfume que ela usava. Além do perfume, descobri o nome dela: Ellen. O nome da minha primeira paixão infantil. O nome daquela menina de cabelos compridos e escrita meio desengonçada. No instante em que descobri como mulher era bom.

Chamei um táxi pra Ellen, segui com o meu carro correndo para o shopping center, consegui pegar a perfumaria aberta. Comprei um vidro do perfume e segui para a casa da minha namorada. Sabia que, se ela sentisse aquele cheiro, estaria morto. Toquei a campainha, dei dois passos para trás e, no que ela abriu a porta, borrifei um pouco do perfume na frente dela, dizendo: “E aí, quer ter uma experiência girl-on-girl hoje?”, com a cara mais deslavada do mundo. Ela me abraçou, sentiu o cheiro e retrucou na hora: “Mas isso é cheiro de puta! Não gostei!”.

E naquele momento, naquele breve momento, minha Helena de Tróia, minha Ellen, por quem eu senti o sangue correr em minhas veias novamente por breves cinco horas, foi jogada em uma vala, metralhada e soterrada ainda respirando por um trator. Nem os militares durante a Guerrilha do Araguaia foram tão impiedosos com um sonho.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Cavaleiro Branco

A noite no 175º DP, em um bairro ermo de São Paulo, seguia calma e irremediavelmente quieta. A noite úmida de verão atraía as aleluias para os postes da rua, enquanto algumas crianças mais mal-educadas insistiam em brincar noite adentro, a despeito das ordens de seus progenitores.
Passaram poucos minutos depois da primeira hora da manhã quando o escrivão notou uma figura insólita apareceu na porta da delegacia, portando uma mochila surrada. Antes que pudesse falar algo, o homem ergueu as duas mãos empapadas de sangue e disse que precisava falar com o delegado. Apenas falar com o delegado.
Antes que pudesse dar conta, o homem foi lançado ao chão e algemado, laçado como se fosse um novilho de torneio rural. Diante dos interrogatórios iniciais dos investigadores, permaneceu calado. Limitava-se a dizer que falaria unicamente com o delegado plantonista. Após alguns sopapos, os policiais concordaram e puseam-no a esperar a audiência.
Aguardava na sala de espera pelo delegado plantonista. A autoridade chegou com os olhos vermelhos de sono, da cama improvisada em uma das salas da delegacia. Notou a presença ao mesmo tempo puída mas, ao mesmo tempo, carregada de orgulho do acusado.

- Desembucha, cidadão. O que queria falar comigo? Veio confessar alguma coisa?
- Confessar não. Assumir. Confessar é assumir culpa. Eu não me sinto culpado.

O delegado sacou um antiácido de uma das gavetas e tomou com toda a melancolia do mundo. Pensou que, diante dele, tinha mais um daqueles projetos de maníacos, ou um vagabundo que, para escapar da cana brava, resolve fingir-se de psicopata para negociar uma temporada em um manicômio judiciário. Mas antes que pudesse terminar a imagem mental na sua cabeça, o acusado disparou “Tampouco sou um daqueles maníacos ou aqueles vagabundos que tentam alegar insanidade. Eu sei o que fiz e vim me colocar à disposição”.
“Pois bem, conta sua história”, disse o delegado com um pouco mais de impaciência misturada com desrespeito. Sabia que aquela noite seria longa. O escrivão colocou-se a postos para recolher o depoimento. Mal sabiam eles.
“Eu sou técnico em informática. Costumo ver computadores alheios como um ginecologista vê a intimidade das mulheres. Por muitas vezes, eu já vi coisas estranhas nos computadores dos clientes que me procuraram, que por obra do destino e da amnésia, eles deixavam lá. Casos virtuais, vídeos comprometedores, até mesmo uma planilha de custos e despesas de um universitário que vendia ecstasy. Pra mim, nunca foi problema. Era pago para apagar, eu apagava.
Por isso, acabei sendo contratado por uma empresa de médio porte, para consertar computadores de gente com mais dinheiro. As coisas estranhas não diminuíram, apenas se diversificaram. Novos casos, novos vídeos, fotos, a mesma merda de sempre.
Até o dia que abri um notebook de um supervisor da empresa. Como ele era um escroto, eu resolvi ver o que ele escondia antes de apagar. Encontrei um vídeo. Caseiro. Era uma menininha. Tinha seus cinco anos. Não sei a quanto tempo, não sei de qual maneira, mas ele a convenceu de que ter um vibrador em sua pequena vulva era uma coisa divertida. Não era a coisa de carne de verdade, era apenas uma cópia de borracha. O processo todo durava uns seis minutos. Você vai encontrar o vídeo na minha mochila, no bolso externo, em um pen-drive. Junto com o backup do notebook desse supervisor.
Aquilo ficou na minha cabeça por dias. Dias. Sempre que olhava para a cara do supervisor, a cena repassava integralmente na minha cabeça. Bastou uma vez para aquilo ficar impresso na minha cabeça. Lembrava até que a criança usava um pijama da Dora, a Exploradora.
Sabia que o supervisor era apenas um usuário, a filha dele não se parecia com a criança que aparecia no vídeo. Por isso, um tiro na cabeça enquanto esperava o portão automático da casa dele bastou. Estive no velório e reconheci, pela voz, quem havia feito aquilo. Coisas assim você tem apenas dois caminhos: ou faz no anonimato completo ou faz com a cumplicidade de um amigo. Por sorte, foi a segunda parte”.
Nisso, ele tirou do pescoço uma corrente com a chave de um armário de aluguel da Rodoviária, e deixou sobre a mesa do delegado. Poucas horas depois, todas as equipes da imprensa vampira acamparam à porta do 175º DP para falar do “Maníaco Corporativo”, que executou um supervisor e degolou e castrou um gerente de Recursos Humanos, escondendo seus troféus em um armário de aluguel em um Terminal Rodoviário. Seu rosto foi estampado em capas de revistas, jornais, na Internet, discutiu-se a sanidade dos técnicos de informática.
Depois de todo o circo, das manchetes e dos comentaristas, o delegado decidiu por juízo próprio omitir a parte da pedofilia. Sabia que, se uma informação como essa vazasse, o assassino seria tomado como um santo, e causaria maiores problemas. Sabia que iria para o inferno se um dia a Mídia descobrisse, mas fez com o consentimento do técnico de informática.
Na manhã da transferência para o presídio em Pindamonhangaba, o delegado plantonista, fora de seu horário de trabalho, limitou-se a perguntar por quê ele havia feito aquilo.
“No dia seguinte a ver aquele vídeo, vi minha filha com uma Dora de pelúcia, que a mãe dela comprou”, respondeu.

****

Vinte anos haviam se passado desde o incidente do “Maníaco Corporativo”. Voltou à pauta das emissoras de televisão pela notícia da filha do gerente que havia degolado e castrado iria visitá-lo na penitenciária. Ele estava velho, cansado, cheio de marcas e sem os dentes da frente, cobertos por uma ponte dentária provida pelo Estado.

- Você matou meu pai, certo?
- Sim.
- Você cortou o pau dele fora também, não é isso?
- Cortei com uma tesoura para tecidos.
- Ele estava vivo quando o castrou?
- Sim.

Do rosto dela, rolaram duas lágrimas, sem nenhuma expressão facial. Ela virou-se e foi embora.
Ele seguiu para sua cela, e pensava secretamente que havia obtido o seu perdão. Ela não comentou o ocorrido de maneira alguma com os repórteres ou blogueiros.
O Maníaco Corporativo apareceu na manhã seguinte, em sua cela, enforcado. No bolso da calça, um bilhete: “Passei vinte anos no Umbral por algo que fiz conscientemente. Hoje, consegui meu perdão. Agora, posso seguir em frente. Aqui não é mais o meu lugar”.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Take me home.

Ele viveu as tardes de pagamento como se fossem luas cheias. De casa para o trabalho, do trabalho para casa. Os finais de semana, jogou as tralhas no porta-malas de sua Parati e levou a família para a praia. Imposto de renda, férias remuneradas, segurou com dignidade a impotência da segunda-feira depois de um feriado prolongado. Criou os filhos na terceira-via, evitou ao máximo trair sua mulher, com quem ficou por trinta e dois anos.

Ele estava na cama do hospital, vítima de seu AVC reservado. Sofreu ao ver a decisão da Libertadores. Correram com ele para o hospital, o plano de saúde lhe dava cobertura - mesmo limitada, ele tinha chances de sair.

Seus filhos fizeram uma peregrinação. Vieram de várias partes do mundo, cada um procurando um espaço em sua agenda para cumprir o ritual de passagem. Cordeiro de Deus, que tira os pecados do Mundo, tende piedade de nós. Não era religioso, mas pensou por um breve momento se tudo aquilo que lhe acontecera na vida - os troca-trocas na infância rural, as brigas no pátio da catequese, a vida de trabalho, os amores e amantes, os filhos e as noites em claro das febres - era uma recompensa, um teste ou simplesmente o jogar de búzios aleatórios sobre a peneira do Universo.

Era um sábado. Passava das onze. As visitas ja tinham ido embora, mas aguardavam na sala de esperas. Ele não gritou, não pediu para ficar. Não puxou a cordinha de emergência para alertar os plantonistas. Abriu os olhos. Viu sua primeira namorada, com o mesmo uniforme normalista. Ela o chamou para sair.

Levantou-se, pegou a chave de suas mãos, foi ao pátio do hospital. Entrou no seu calhambeque, e seguiu pela estrada. Viu os ipês da rua lhe saudarem com flores amarelas, como César chegando das conquistas. Engatou a quinta marcha, fez barulho por todas as casas da vizinhança rica. Ninguém ouviu.

E ele foi para casa.

terça-feira, 1 de junho de 2010

April O'Neill X Nelson Rodrigues


April O'Neill era a repórter quase assexuada que seguia as Tartarugas Ninjas por onde quer que elas iam, em meio a uma Nova Iorque fictícia e estranha. Em seu tempo e lugar, fazia a coisa mais normal do mundo: cobrir histórias de anfíbios vítimas de mutações químicas enfrentando aliens transdimensionais e uma horda de ninjas encapuzados, sendo esporadicamente ajudados pelo cruzamento do Kevin Smith com o Jason do Sexta Feira 13. Estava lá apenas para que quebrasse a acidez do molho do desenho/trilogia cinematográfica.

Nelson Rodrigues era o jornalista e cronista adúltero, cafajeste, fumante imbatível, alcoólatra, polêmico, reacionário, anticomunista que todos nós conhecemos e aprendemos a amar ou odiar. Abriu a alma da sociedade carioca (quem sabe até mesmo a brasileira ou o gênero humano) como uma criança de sete anos abre uma minhoca para saber como aquele monte de carne consegue se mexer e ser considerado "viva". Deu um novo significado ao absurdo cotidiano, das coisas que acontecem na intimidade dos lares e dos pudores do brasileiro médio. O negócio dele, como diria décadas mais tarde Alexandre Frota, era comer o cu e a buceta da mediocridade brasileira.

A imagem que tínhamos do jornalista (de Clark Kent a Kent Brockman) trazia uma coisa dos exploradores, os garimpeiros do fato cotidiano. Na falta de grandes assuntos, cabia a eles trazer na ponta dos dedos a alquimia de transformar fezes em Chanel N.º 5. Pegue qualquer história de Rubem Fonseca (outro jornalista da Velha Guarda) e verá a capacidade do bom e velho folhetim, da criatividade e do lirismo sujo de graxa das rotativas.

Hoje, em um mundo de Google e com um acesso cada vez mais planificado no broadcast de informações, acabou-se a profissão cética de pilório desgastado por prazos, pressões, interesses. Hoje, qualquer um - inclusive esse que escreve depois de praticamente um ano - pode emitir opiniões. Não existe mais a preparação, o darwinismo redacional onde só o melhor pode sobreviver. Os critérios mudaram, a meritocracia virou uma piada.

Resta ao jornalista recém-encanudado dois caminhos: o da subserviência aos ideais dos patrões nos Cursos de Jornalismo da vida (cabendo apenas escolher o grau da Imprensa Golpista onde pretende engajar), ou a subserviência do decote. Que decote? O do universo feminino que invadiu o testosterônico mercado de trabalho jornalístico brasileiro.

Mais uma vez, a ajuda da nossa velha amiga tecnologia: Com videocasts, podcasts, entrevistas ao vivo por streaming e qualquer outra bugiganga inventada pelos nerds espinhudos, a imagem ganhou uma importância quase obscena dentro das estratégias dos publishers. Só um Luciano Facciolli tem espaço na televisão às sete e meia da manhã (Olha a hora, olha a hora gente!). Ou vocês realmente acham que a Patrícia Poeta sabe escrever um texto de 30 linhas em menos de 1 hora contando apenas com o tema, sem qualquer outro recurso técnico? O "Tempo dos Navios de Madeira e Homens de Ferro" do Jornalismo acabou. Não há mais espaço para velhos jornalistas.

Encaro na minha cama "O Berro Impresso das Manchetes" de Nelsão - uma coletânea de crônicas esportivas que escreveu para a "Manchete Esportiva" do Rio de Janeiro, criada pelo lendário publisher Adolpho Bloch (que também criou "Ele & Ela", revista masculina cujos contos eróticos devidamente censurados e com termos trocados ajudaram muito em minha pré-adolescência). Uma pérola de como se escreve o rodo cotidiano com excitação, conteúdo, malícia e, sobretudo, autoridade de quem não trabalha com jornalismo, mas é um jornalista.

Duvido que, daqui a 50 anos, vejamos um livro de crônicas esportivas de autoria da Renata Fan.


Essa é a minha opinião.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

- Cê viu aquela guria que teve a 'tuitada' citada no jornal?
- Vi.
- É.....
- Ela não é aquela atriz, daquele seriado?
- Pesquisou, né?
- Só colocava naquele canal pra ver a cara dela e aquela animação de massinha dos carneiros..... Rapaiz, eu colocava ela num chaveiro.
- Você ia quebrar a cara.

Não sei bem o motivo, mas "Fuck Her Gently" do Tenacious D começou a fazer sentido.

domingo, 27 de setembro de 2009

Um idiota com dinheiro

Faça a seguinte experiência. Pegue 100 idiotas, das mais sortidas classes sociais. Dê a elas R$ 100 e jogue-as dentro de um shopping center, com a condição de que gastem no shopping e respondam duas perguntas no final do dia: o que compraram e no que acreditam. Um idiota com dinheiro é apenas um idiota com dinheiro; não é porque ele é rico ou bem-sucedido que será uma pessoa melhor. Pode justamente acontecer o contrário: o 'vil metal' do Belchior (de volta à mídia no final dos seus 15 minutos de retorno) vai apenas mostrar a sua verdadeira face, escondida sobre camadas de verniz social e politicamente correto.

Na coluna do retardado mental do Diogo Mainardi* do dia 16 de setembro "Petróleo... Na África", e com a recente coluna "O Presidente-Muamba", do dia 25, vemos quem é o verdadeiro idiota em todo este nosso carnaval midiático. As duas peças se encaixam no script apontado por todos os verdadeiros jornalistas, aqueles que viveram de fato a profissão em seus altos e baixos, longe dos cursos preparatórios das behemoths da comunicação brasileira: que a direita brasileira prega ininterruptamente em direções opostas. Onde houver clareza, espalhará dúvida; onde houver vontade, espalhará o desânimo; onde houver progresso, espalhará a tucanagem.

Na coluna da semana passada, Mainardi fez de maneira zelosa e descritiva o desdém que sente pela abordagem do Governo Federal na questão da exploração do petróleo na camada pré-sal na costa brasileira. Afirma que, com a descoberta de petróleo no pré-sal de Serra Leoa, na costa da África Ocidental, o Brasil entra natimorto no ciclo do petróleo mundial: "O pré-sal tem tudo para repetir o ciclo da borracha. Do apogeu à queda. A belle époque amazonense recorda a belle époque lulista". Poucas linhas antes celebra o acordo firmado pelo governo de Serra Leoa de concessão seria o mais correto: "Igual ao dos Estados Unidos". Obviamente que o modelo funciona bem para os americanos, uma vez que são eles segurando a faca na garganta dos outros.

O modelo americano, tão celebrado pelo colunista ítalo-estadunidense-brasileiro** produziu diversas democracias ao redor do mundo: o Shah do Irã, a teocracia da Arábia Saudita (que só não é combatida pela opinião pública como misógina, retrógrada e assassina por conta da contextualização econômica entre os dois lados do balcão de negócios) e Saddam Hussein, que por duas vezes deu dinheiro aos americanos: com o petróleo na década de 80 e com as empreiteiras no século XXI (mesmo assim, escolhi ser jornalista a ser engenheiro. Não queria ser um novo Carlos Vilela no futuro). Os falcões conservadores da Nova Inglaterra, juntamente com o Carlyle Group, estão migrando suas nuvens de gafanhotos do Oriente Médio para voltar à África, como numa nova corrida colonialista, rivalizando com os chineses que já haviam descoberto a Mãe da Humanidade há alguns anos - tendo como Angola o principal exemplo de neocolonialismo econômico.

A teoria de Mainardi - e de grande parte da chamada "Imprensa Golpista" brasileira - é o que nos círculos mais recônditos da internet chamam de "Troll Falho". Alimenta chamas de polêmica sem sequer prestar atenção nos pilares básicos de uma boa discussão, soterrando a lógica com chorume e insultos de pré-primário. Chama Lula de caudilhista e retrógrado por conta da postura tomada na questão dos energéticos submersos, mas deixa de lado o "nerve" brasileiro em reafirmar que o "Petróleo É Nosso", uma vez que temos potencial tecnológico para extrair o em águas profundas (muito mais rápido que a concorrência, devido à experiência da Petrobrás em operar na costa brasileira), além da estabilidade política do Brasil em relação ao outro lado do Oceano Atlântico. Enquanto que lá chefes tribais perguntam a seus desafetos políticos "manga curta ou manga comprida?" com um facão (afim de saber onde será feita a amputação, no pulso ou no ombro), o Brasil mesmo com seus Sarneys, Serras e Zés Dirceus, ainda consegue ser uma democracia sólida de sucessão de governos pacífica e produzindo petróleo. Não precisa ser um MBA para saber qual é o lugar com maior liquidez nos negócios.

Falando em democracias, a manhã de domingo ficou um pouco mais conservadora com a abordagem da imprensa abrilesca sobre o abrigo do presidente deposto de Hondura, Manuel Zelaya. Seja pelas armas convencionais (das páginas do miolo, temperadas com anúncios) ou pelas "operações especiais" dos formadores de opinião da tucanagem paulistana de 18 a 55 anos, a missão é a mesma: colocar o Brasil como um comprador de feijões mágicos ao dar abrigo ao presidente hondurenho após ser deposto em conjunto pelo Poder Legislativo, Judiciário e Eclesiástico de seu país. De mais a mais, a própria Constituição hondurenha não reconhece a legitimidade de qualquer governo que tenha sido alçado por meio de golpe, militar ou não. Fica a pergunta: quem feriu primeiro a Constituição? É crime discutir, debater o que está escrito em pedra? Fosse assim, ainda estaríamos no Código de Hamurabi.

Para os "teóricos de Diplomacia e Relações Internacionais" Miriam Leitão e Alexandre Garcia (da sempre imparcial, justa e decente Rede Globo), o Brasil deveria manter-se neutro, como um cidadão que fica calado quando vê uma mãe adolescente descontrolada bater violentamente em uma criança por uma mera birra. Para eles, o Brasil não pode se destacar na multidão de repúblicas bananeiras. O Brasil não pode ter opinião lá fora, pois o povo pode se acostumar com essas idéias e sair da revolução feita no sofá de "#forasarney".



Um idiota com dinheiro continua sendo um idiota. O Brasil mostra que se esforça em deixar de ser apenas um idiota com dinheiro: está opinando e defendendo posições, primeiro lá fora. Sempre fomos bons em primeiro exportar, para depois colocar no Mercado Interno. Espero que este choque de consciência acabe sendo absorvido pela opinião pública brasileira (muito mais forte que a dos colunistas de esquerda ou direita) e se sobreponha.

E, como era de se esperar, o primor do sentimento de orgulho nacional da Imprensa Golpista está estampado na capa da "Veja". Aquela mesma que colocou Lula com uma marca de sapato nas nádegas e o Brasil como um mero garnizé diante da Águia americana. Nessas horas eu pergunto se Deus, em sua infinita sabedoria, me deixou de fora de lá por duas vezes para que eu não sentisse nojo imediato dessa profissão que escolhi.



"Se o país [Brasil] é humilhado pelos vizinhos, tem suas riquezas roubadas impunemente e acumula derrotas nos organismos internacionais, é porque o presidente e seus diplomatas escolheram o caminho da ideologização da diplomacia nacional".

Sem me apegar à imbecilidade de seu argumento, caros Otávio Cabral e Duda Teixeira, eu pergunto com a inocência de uma criança que deixou a cartilha: IDEO-LO-QUÊ?


* Mino Carta uma vez disse que "O máximo que o cidadão [Diogo Mainardi] produz com perfeição é paralisia cerebral". Provavelmente Carta deve ter orgulho do seu pai, assim como eu tenho orgulho do meu e de tudo que ele representa como ser humano. Quanto a Mainardi, seu filho talvez não terá orgulho de seu pai no futuro, mesmo se pudesse.

** No final do século XIX, os navios que partiram da Itália para as Américas se dividiram quase que 50-50 entre o porto de Santos e o porto de Nova Iorque. O colunista abrilesco lamenta com lágrimas de sangue que seus ancestrais tenham embarcado no navio errado, por isso sonha em ter a cidadania americana, advogando em seu nome na imprensa brasileira.